Artigos - São Paulo Shimbun - Ano 1999/2000

DIA DA ÁRVORE (Jumoku no Hi)

        Anteontem, 21de setembro, foi o Dia da Árvore no Brasil. Os críticos dizem que a data nunca serviu para plantios simbólicos de árvores e para festinhas em escolas primárias. Este ano, porém, a data foi marcada por uma boa notícia: o anúncio, pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, de um decreto que cria no país oito novas áreas de preservação do ecossistema.São quatro novos parques nacionais, três reservas extrativistas e uma área de preservação ambiental, que, somados, equivalem à metade da área do Estado de Alagoas. Agora, cerca de 5% do território brasileiro está protegido por lei federal.
        No Japão, o equivalente ao Dia da Árvore é o Midori no Hi (Dia do Verde), comemorado em 29 de abril. Essa data era, feriado nacional por ser o aniversário de nascimento do Imperador Showa. Após a sua morte, em 1989, a data passou a ser dedicada à celebração do meio ambiente. O Japão possui 24,7 milhões de hectares de florestas o correspondente a, cerca de dois terços de seu território. Aproximadamente 70% dessa área florestal é de propriedade privada.
        O Japão produz cerca de 50% da madeira que consome. O restante importa de países como Malásia, EUA, Rússia, Canadá, Filipinas e Indonésia. Mais recentemente, em virtude do declínio de produção na região asiática, os japoneses voltaram sua atenção para a Amazônia.
        A maior parte das florestas no Japão fica em regiões montanhosas, de difícil acesso. Talvez por isso, desde os tempos remotos há uma tendência entre japoneses de verem as montanhas e as florestas como lugares sagrados, onde descem os deuses e onde vagueiam os espíritos dos ancestrais.
        Essa visão animista, ou seja, a crença de que tudo tem uma "alma", permanece basicamente inalterada até hoje e influencia várias formas de expressão artística. Embora a natureza forneça um apoio espiritual aos japoneses, a maioria das pessoas não tem um contato direto diário com a natureza. Para alguns, este é um dos motivos pelos quais nem todos têm a consciência da necessidade de preservar o meio ambiente.

Provérbios:

Saru mo ki kara ochiru : O macaco também cai da árvore = Mesmo um expert pode falhar de vez em quando.

Tamerunara wakagi no uchi : Endireite o galho enquanto a árvore é nova = É preciso corrigir os defeitos e maus hábitos enquanto é jovem, pois fica mais difícil depois de adulto.

Ki ni yotte uo o motomu : Procurar um peixe em cima da árvore = Não se alcança o objetivo sem os meios adequados.

Yanagi ni kaze to ukenagasu : Saber lidar com o oponente, em vez de desafiá-lo (assim como o salgueiro,cujos ramos se flexionam com a força do vento).

Yoraba taiju no kage : Se é para buscar abrigo, que seja sob uma árvore grande = É melhor depender de pessoas ou grupos que tenham mais poder.

Yakebokkui ni hi ga tsuku : Pegar fogo em lenha queimada = Reacender uma paixão antiga.

Kane no naru ki : Uma fonte de lucro fácil. Era como os propagandistas da migração japonesa para o Brasil se referiam ao cafeeiro.

Ki o mite mori o mizu : Ver a árvore, mas não a floresta = Deter-se no detalhe e não enxergar o todo.

Udo no taiboku : Grande, mas inútil.

Fonte: São Paulo Shimbun 23/09/1998


TEATRO NÔ E KYÔGEN

        O Nô (grafado às vezes também como Noh) e o Kyôgen são dois gêneros teatrais clássicos do Japão. Os dois são tradicionalmente representados num mesmo programa e apresentam uma herança em comum, embora cada qual tenha uma forma própria. O Nô foi criado no final do século 14 por Kan'ami e seu filho Zeami, que introduziram inovações e refinamentos no Sarugaku, forma popular de entretenimento derivada de antigas fontes nativas e estrangeiras.
        Existem atualmente cerca de 240 peças de Nô, das quais quase um terço foi criado por estes dois autores. Zeami, em especial, escreveu também vários textos em que estabeleceu os princípios estéticos esta arte, detalhando como as peças devem ser compostas, representadas, dirigidas, ensinadas e produzidas.
        Durante o Período Edo (1603-1868), o Nô tornou-se a cerimônia ritualista oficial do governo militar e, como tal, recebeu proteção especial do governo, o que perdurou até a Restauração Meiji, no final do século 19. O Nô é um gênero teatral que combina elementos de dança, drama, música e poesia. As peças são representadas por artistas profissionais, principalmente homens, que vêm transmitindo os segredos da arte entre membros da família há várias gerações.

        O principal personagem de uma peça de Nô é chamado "shite". Seu companheiro é "tsure", enquanto o ator secundário é conhecido como "waki". O "shite", geralmente, usa uma máscara, cujo objetivo é criar uma profundidade emocional maior, por ser um poderoso meio de expressão. Além disso, a máscara ajuda a ocultar as características individuais do ator.
        O Kyôgen, por sua vez, é um teatro cômico que serve de contraponto ao Nô, mais sério. Sua origem e desenvolvimento são paralelos aos do Nô, e o costume de apresentar suas peças no intervalo entre duas representações de Nô data de 600 anos atrás. Nos últimos anos, têm sido apresentados programas compostos exclusivamente de peças de Kyôgen, mas se trata de uma exceção à regra.
        Enquanto o Nô é musical por natureza, o Kyôgen enfatiza o diálogo. O Kyôgen é uma farsa mímica que visa arrancar o riso dos espectadores, mas não pode ser classificado simplesmente como um gênero de comédia. Embora algumas peças façam uso da sátira, outras alcançaram o limite da tragédia, provocando antes lágrimas do que o riso.

Fonte: São Paulo Shimbun 24/06/1999


BANHO PÚBLICO ( Sentô)

        Sentô é o nome que se dá no Japão às casas de banho público, onde é possível banhar-se mediante pagamento de um valor geralmente módico. Há registros de que os sentô existiam já na Idade Média, mas sua popularização ocorreu duranre o Período Edo (1603-1868).
        Até o Período Meiji (1868-1912), os sentô, assim como os onsen (estação de águas termais), permitiam o banho misto de homens e mulheres. Depois, por influência da cultura ocidental, passou-se a proibir o banho misto. Para o japonês típico, tomar banho é um ritual diário obrigatório.
        O banho é visto não somente do ponto de vista da higiene. Ele serve não apenas para tirar a sujeira do corpo, mas também para "purificar a alma" - uma herança do xintoísmo. Além do mais, ajuda a relaxar e elimina a fadiga do trabalho.

        Houve uma época em que se podia encontrar um sentô em todos os cantos do Japão. Era no tempo em que as pequenas casas japonesas raramente estavam equipadas com banheiro próprio. Os sentô eram pontos de encontro da comunidade local. Os moradores da vizinhança iam ao sentô não só para tomar banho, mas também para colocar a conversa em dia com os amigos.
        Hoje, a maior parte das casas japonesas dispõe de banheiro.Em conseqüência, o número de casas de banho público vem reduzindo-se drasticamente. Para chamar de volta a freguesia, as casas de banho procuram modernizar-se.         Algumas casas tradicionais instalaram sauna e aparelhos de condicionametno físico, para atrair os clientes preocupados com o corpo e a saúde.
        Outras casas se aproximaram mais de um centro de lazer, instalando equipamentos de karaokê, videokê e outras formas de entretenimento. Os sentô podem ser identificados à distância por suas chaminés bem altas. A entrada da casa do banho exibe geralmente um noren (cortina curta com o nome do estabelecimento). Na sala de banho propriamente dita, é comum observar murais retratando o Monte Fuji. Mesmo sob risco de extinção, os sentô já fazem parte da cultura japonesa. E há quem afirme: se você nunca foi a um sentô, não pode dizer que conhece o Japão.

Fonte: São Paulo Shimbun 09/09/1999


EMA

        Ema é uma tabuleta em forma de telhado com a imagem de um cavalo pintado. Esta tabuleta é oferecida por um grande número de japoneses superticiosos a um santuário ou templo quando fazem um pedido aos deuses ou depois que uma súplica foi atendida.
        Entre os católicos, existe um ritual parecido. Trata-se do ex-voto - um quadro, uma imagem ou outro objeto que os devotos oferecem a uma igreja ou capela em comemoração a um voto ou promessa cumpridos. A Catedral de Aparecida do Norte, por exemplo, recebe muitos desses objetos. Embora não se saiba com precisão quando surgiu entre os japoneses o costume de oferecer ema, documentos históricos indicam que ele já existia no Período Heian (794- 1192), popularizando-se no Período Kamakura (1192-1338).
        Originalmente, os fiéis japoneses ofereciam cavalos de verdade em "pagamento" aos seus pedidos. Posteriormente, substituíram o cavalo vivo por imagens do animal. Vem daí o termo ema, que significa literalmente "desenho de cavalo". Apesar de o conteúdo hoje não se restringir a cavalos, subsistiu o termo ema. Foi no Período Edo (1603-1868) que ocorreu uma grande diversificação do conteúdo do ema.

        Surgiram ema com todo tipo de desenho, e também os que exibiam haiku (poema japonês de 17 sílabas), waka (poema japonês de 31 sílabas), senryú (poema satírico) e wasan (matemática desenvolvida no Japão). Artistas passaram a se dedicar com afinco à criação de ema, que conseguiu, deste modo, elevar-se à condição de verdadeiras obras de arte. Além de madeira, outros materiais podem ser utilizados para fazer ema, como papel, metal, pedra e porcelana.
        É comum os japoneses escreverem no ema pedidos relacionados com a saúde e a gravidez. Recentemente, tornou-se comum também avistar nos santuários e templos ema de estudantes pedindo ajuda dos deuses para serem aprovados em exames escolares.

Expressões e Provérbios

Takeuma no tomo - amigo íntimo (desde criança, quando brincavam com cavalinhos de bambu).

Bajitôfu - literalmente, " vento de primavera em orelhas de cavalo". Significa não dar ouvidos, mostrar total indiferença.

Jajauma - cavalo indócil, mulher cruel, megera.

Yajiuma - espectadores curiosos,bisbilhoteiros.

Uma no mimi ni nenbutsu - "rezar no ouvido do cavalo". Metáfora utilizada numa situação em que falar é inútil.

Uma ga au - dar-se bem, harmonizar.

Mago ni mo ishô - qualquer um pode parecer bonito se cuidar da aparência externa.

Uma no wa notte miyo hito ni wa sotê miyo - se quiser conhecer um cavalo, monte nele; se quiser conhecer uma pessoa, conviva com ela.

Uma o ushi ni norikaeru - trocar o cavalo pelo boi = deixar uma coisa boa por outra inferior (porque o cavalo é mais rápido)

Fonte: São Paulo Shimbun 23/09/1999


LUZES

        A história das luzes no Japão, a exemplo do que ocorreu em outras civilizações, passou por várias etapas, desde o uso do fogo produzido por lenhas até a invenção da lâmpada elétrica. Um dos aspectos que chamam a atenção, no caso japonês, é a riqueza da variedade de utensílios utilizados para iluminação, muitas vezes comparáveis a verdadeiras obras de arte.
        Os utensílios japoneses de iluminação tradicionais podem, a grosso modo, ser divididos entre os de uso interno ou externo, e subdivididos entre os de uso fixo ou portátil. A iluminação interior era de três tipos principais: os dispositivos que eram colocados no chão, como por exemplo o andon (lanternas com estruta coberta de papel); os utensílios que ficavam suspensos no teto, como o tsuriandon; e os que eram pendurados na parede, como as lanternas de papel chôchin.
        Após a Segunda Guerra Mundial, houve uma grande mudança nos valores e no estilo de vida dos japoneses, e o uso de lanternas tradicionais entrou em declínio. Mesmo assim utensílios de iluminação típicos ainda estão presentes no Japão contemporâneo, seja para fins unicamente decorativos, seja por motivos religiosos, como ocorre durante o Obon, quando as lanternas de papel iluminam o caminho para os espíritos dos ancestrais retornarem a suas casas.

Provérbios e Expressões:

Chôchin o motsu : Segurar a lanterna para os outros. Servir de instrumento a alguém, adulá-lo.

Chôchin ni tsurigane : Literalmente, lanterna de papel e sino suspenso. Embora as duas coisas tenham um aspecto similar, são completamente diferentes qunto ao uso e ao material. Daí, esta expressão significa " não combinar bem."

Rôsoku wa mi o herashite hito ni tsukuru : A vela se consome para servir às pessoas.

Tôdai moto kurashi : Não enxergamos bem a prate abaixo do castiçal que não é alcançada pela luz. Por extensão, tudo aquilo muito próximo de nós dificulta a percepção ou compreensão.

Tôka shitashimu no aki : Outono é a época mais apropriada para leitura à luz do candeeiro, pois é quando as noites são mais compridas.

Fonte: São Paulo Shimbun 21/10/1999


REFEIÇÃ DO ANO NOVO (Shôgatsu Ryori)

        Para muitos japoneses, o novo ano só começa de verdade quando a família se reúne para saborear o osechi ryôri, a tradicional refeição do Ano Novo. Originado numa cerimônia de oferenda aos deuses, no Período Nara (710-793), o osechi ryôri consiste em uma variedade de pratos que são preparados com antecedência e dispostos artisticamente num conjunto de caixas de laca sobrepostas, o jûbako. O mais comum são quatro caixas sobrepostas.
        Os ingredientes variam conforme a região, mas entre os mais comuns estão o kazunoko (ovas de arenque), kinton (batata-doce moída), kamaboko (pasta de peixe cozido) e kuromame (feijão preto de soja). Esses ingredientes geralmente simbolizam algo de auspicioso. O kazunoko, por exemplo, é considerado bom para aumentar a fertilidade.
        Modernamente, o osechi ryôri cumpre o papel de dar um merecido descanso às donas de casa no Ano Novo. Ou seja, elas preparam os pratos com antecedência para não terem que cozinhar durante o feriado, podendo, deste modo, desfrutar melhor das festas em companhia de seus familiares.
        Para facilitar ainda mais a vida das donas de casa, vários restaurantes e lojas de departamento vendem o osechi ryôri já pronto. As opções são tantas que o consumidor pode hoje em dia escolher entre cozinha japonesa, chinesa ou mesmo francesa para formar a base dos pratos do osechi.
        Outro prato típico do Ano Novo é o ozôni, uma sopa preparada com mochi (bolinho de arroz glutinoso), legumes, frango ou peixe e outros ingredientes. Geralmente é uma sopa clara, mas, em algumas regiões, como Kioto e Osaka, é preparada com misô.
        Os japoneses acreditam que comer ozôni no Ano Novo trará boa sorte no ano inteiro. Ao que consta, este costume existe desde o Período Muromachi (1338-1573). Outro ingrediente tradicional do Ano Novo japonês é o otoso, um saquê preparado com a infusão de várias ervas, como casca de canela, sementes de sansho (pimenta japonesa) e raízes de plantas medicinais. Introduzido da China no Período Heian (794-1192), o otoso é servido num conjunto de bule e taças laqueadas.Acredita-se que ele tem o poder de afastar os maus espíritos e trazer vida longa.

Provérbios :

Sake wa hyakuyaku no Chô : Quando consumido adequadamente, saquê é melhor do que qualquer remédio.

E ni kaita mochi : Algo sem utilidade prática (como um bolinho de arroz pintado num quadro, que não dá para comer).

Fonte: São Paulo Shimbun 16/12/1999


ANO DO DRAGÃO (Tatsudoshi)

        Pelo calendário chinês, 2000 será o ano do dragão, o fabuloso monstro que há séculos vem povoando o imaginário de pessoas de todas as idades no mundo inteiro. Influenciados sob vários aspectos pela cultura chinesa, os japoneses também adotaram o costume de atribuir a cada ano as características de um dos 12 animais do zodíaco chinês, com algumas adaptações.
        Em japonês, o ano do dragão chama-se tatsudoshi. Existem na astrologia chinesa 12 signos, identificados pelos nomes de 12 animais. Embora não se saiba ao certo por que foram escolhidos precisamente esses 12 animais, diz uma lenda que, em um certo Ano Novo, Buda convidou todos os animais do reino a irem a seu encontro. Por motivos ignorados, apenas 12 compareceram.
        O primeiro a chegar foi o rato, seguido do boi, tigre, coelho, dragão, serpente, cavalo, carneiro, macaco, galo, cão e javali. Como forma de agradecer aos animais que atenderam a seu convite, Buda decidiu atribuir aos anos o nome de cada um deles, e aqueles que nascessem durante um determinado ano herdariam algo da personalidade do animal correspondente.
        Além dos 12 signos do Zodíaco chinês, há ainda cinco elementos - metal, água, madeira, fogo e terra - que exercem influência sobre os signos, acentuando suas características. Uma pessoa nascida em ano do dragão é tida como dotada de forte personalidade. Tem carisma, é inteligente, determinada, autoconfiante, defende suas próprias opiniões e pode assumir controle e lidar bem com qualquer tipo de problema.
        Como todos os demais signos, a pessoa nascida em ano de dragão tem também seus defeitos. Por sua personalidade dominante, chega às vezes a ser ditatorial. Não gosta de ouvir conselhos alheios, é muito arrogante, tem pouca paciência. Raramente concorda com os mais velhos, é seco e direto.
        Pesando os prós e contras, o dragão é visto geralmente como o mais desejável dos signos. Segundo dizem, quem nasce em ano de dragão é talhado para o sucesso e a prosperidade. Os chineses levam tão a sério esta profecia que, em anos de dragão, a taxa de natalidade costuma subir na China.

Provérbios:

Ryû no hige o Ari ga nerau : A formiga que encara o dragão. Metáfora do mais fraco que, sem consciência de sua própria limitação, tenta opor-se ao mais forte.

Ryû wa issun nishite shôten o ki ari : O gênio se manifesta já na infância.

Garyô tensei : Literalmente, "finalizar os olhos da pintura de um dragão". Refere-se genericamente ao toque final que falta para a conclusão de uma coisa.

Tôryûmon : Porta de entrada para o sucesso.

Ryûtô dabi : "Cabeça de dragão, cauda de serpente". Uma coisa que começa com todo vigor, mas não dura muito (assim como o dragão, cuja cabeça impressiona, mas a cauda nem tanto).

Fonte: São Paulo Shimbun 23/12/1999


CERIMÔNIA DA MAIORIDADE (Seijinshiki)

        Tradicionalmente comemorado no dia 15 de janeiro, o Seijin no Hi (Dia da Maioridade), um feriado nacional no Japão, será celebrado este ano na próxima segunda-feira, dia 10. É que, com a aprovação no ano passado de uma lei que introduziu mudanças no calendário dos feriados nacionais, o Dia da Maioridade tornou-se uma data móvel e passa a ser festejado na segunda segunda-feira de janeiro.
        O Seijin no Hi é o dia em que os jovens japoneses que completam 20 anos atingem oficialmente a maioridade, passando a ter todos os direitos e deveres de um cidadão adulto. Em todo o Japão, os governos locais realizam Seijinshiki, a cerimônia para dar boas-vindas aos novos adultos da comunidade.
        Durante a cerimônia, as autoridades fazem discursos e os novos adultos recebem pequenos presentes de recordação dessa importante data. Consideram-se legalmente maiores de idade todas as pessoas que completarem 20 anos de idade em qualquer dia entre 2 de abril do ano anterior e 1° de abril do ano corrente ano.
        Ao completar 20 anos, os jovens adquirem o direito de votar. Podem também se casar sem consentimento dos pais. As cerimônias da maioridade são realizadas no Japão desde tempos imemoriais. Houve uma época em que os meninos eram considerados adultos ao redor dos 15 anos, enquanto as meninas celebravam sua maioridade por volta dos 13 anos.
        Foi só em 1876, após a Restauração Meiji, que o Código Civil Japonês estabeleceu 20 anos como a idade em que uma pessoa se torna legalmente adulta. No Dia da Maioridade, os rapazes vestem ternos e a maioria das moças costuma vestir furisode, um luxuoso kimono para mulheres solteiras.
        O furisode apresenta uma parte que pende das mangas e que, de tão comprido, chega a tocar no chão - pode ter mais de 1 metro. Um furisode custa o equivalente a milhares de dólares. Devido ao custo elevado, muitas famílias optam por alugar o kimono para esta ocasião. Há também garotas que pedem aos pais para em vez de comprar o traje, dar-lhes o dinheiro para que elas possam gastá-lo em viagens ou outras coisas.
        Ao completar maioridade, os jovens ganham também o direito de fumar e beber legalmente. Por isso, muitos jovens comemoram a data promovendo festas regadas a bebidas alcoólicas.

Fonte: São Paulo Shimbun 06/01/2000


FESTIVAL DA FOGUEIRA (Dondoyaki)

        Entre as várias tradições ligadas ao Ano Novo japonês, uma das que persistem em muitas regiões do país é o Dondoyaki, ou Festival da Fogueira, que serve para assinalar o fim das festividades da passagem do ano. É realizado geralmente entre os dias 14 e 15 de janeiro, mas a data varia conforme a localidade.
        O Dondoyaki é um ritual que remonta ao Período Heian (794 - 1192). Também conhecido como Sagichô, Saitôyaki e outros nomes, surgiu como um ritual para afugentar os maus espíritos. Nesse dia, as pessoas armam uma estrutura de bambu para fazer uma enorme fogueira ao ar livre.
        Atiram-se na fogueira os amuletos da sorte e os adornos utilizados na festa de Ano Novo, como o kadomatsu (arranjo de ramos de pinheiro) e o shimenawa (corda grossa de palha entrelaçada). As crianças queimam as folhas de papel de kakizome, a primeira escrita caligráfica do ano, geralmente contendo uma frase com a resolução para o novo ano.
        Acredita-se que, quanto mais alto subirem os pedacinhos de papel durante a queima, mais rapidamente a criança desenvolverá sua habilidade em caligrafia. As pessoas aproveitam a fogueira para assar bolinhos de mochi. Segundo dizem, comer esses bolinhos de arroz ajuda a tornar-se imune às doenças no novo ano.

Expressões :

Sewa o yaku : cuidar diligentemente de alguém.

Sewa ga yakeru hito : pessoa que dá muito trabalho. Te o yaku: ter aborrecimentos, ter dificuldades de lidar com algo.

Yakimochi o yaku : ter ciúmes.

Mune ga yakeru : ter azia.

Fonte: São Paulo Shimbun 13/01/2000


PIPAS (Tako)

        Uma das cenas típicas do Japão no Ano Novo e em outras ocasiões festivas é empinar pipas, um costume que provavelmente os japoneses trouxeram da China antes de Era Heian (794 - 1185). Embora muitas crianças prefiram hoje ficar trancadas em suas casas brincando de videogame, as pipas japonesas continuam chamando a atenção de um grande número de pessoas em todo o mundo, por sua beleza e originalidade.
        Antigamente, as pipas no Japão eram utilizadas principalmente em ritos religiosos. Ora empinavam-se pipas para afugentar os maus espíritos, ora para agradecer aos deuses pela boa colheita ou então para pedir boa saúde ou prosperidade.
        Consta que as pipas serviam também para fins militares. Eram utilizadas, por exemplo, para veicular mensagens secretas ou mesmo para transportar comida e outros suprimentos aos defensores de castelos sitiados pelos inimigos.         Pipas gigantescas povoam a imaginação dos japoneses desde tempos imemoriais. Diz uma lenda que, no século 12, o guerreiro Minamoto no Tametomo (um herói do famoso clã de Genji) foi exilado em uma ilha junto com seu filho criança.
        Tametomo teria tentando teria tentado mandar seu filho de volta ao continente amarrando-o a uma enorme pipa. A fabricação de pipas desenvolveu-se no Japão de forma espantosa, graças à existência de papel de excelente qualidade, bambu e linho. Houve uma época, no entanto, em que o custo do papel era tão elevado que somente nobres tinham condições de ter pipas. Com o tempo, as pipas tornaram-se acessíveis a pessoas comuns e sua proliferação foi tamanha que, no século 17, o governo chegou a proibir que se empinassem pipas, sob a alegação de que atrapalhavam o tráfego.         Apesar do declínio do número de artesões especializados na produção de pipas, o Japão ainda é considerado pelos entusiastas como a capital mundial das pipas, pela riqueza de seus formatos e desenhos.

Fonte: São Paulo Shimbun 20/01/2000


ONI

        Personagem de inúmeros contos e lendas japonesas, o Oni é uma criatura misteriosa geralmente representada com forma humana, mas com estatura muito maior e exibindo dois chifres na cabeça. Embora seja visto como um guardião do inferno, ele é um pouco diferente do diabo ou demônio imaginado pelos ocidentais.
        O Oni é uma criatura mais complexa. Às vezes é a própria encarnação do mal, outras vezes chega a ser adorável. Ora é um monstro terrível a ser derrotado pelo herói, ora não passa de um bode expiatório. O Oni às vezes se transfigura de mulher e torna-se a encarnação do ciúme e da inveja. Nas histórias infantis, ele aparece muitas vezes como um bicho-papão, alguém cujo papel é meter medo nas crianças para que elas não se desviem do bom caminho.
        Em suma, o Oni simboliza quase tudo o que é misterioso ou estranho. Ele representa o "outro", conforme bem definiu Ariko Kawabata, professora de literatura inglesa da Universidade da Província de Aichi. No Japão, o dia 3 de fevereiro é conhecido como Setsubun, que significa "divisor de estação". Ele marca a passagem do inverno para a primavera, segundo o antigo calendário japonês.
        Na noite do Setsubun, os japoneses costumam espalhar grãos de soja pela casa e dizer "Oni wa soto, fuku wa uchi" (Para fora demônio, para dentro a boa sorte), para espantar os maus espíritos e atrair a felicidade. Neste caso, o Oni representa também o espírito do frio e do inverno.

Expressões e provérbios :

Oni ni kanabô : Significa "da melhor", "mais que perfeito" ( O Oni já é forte; com um bastão de ferro, fica ainda mais forte).

Oni no inu ma ni sentaku : Relaxar na ausência daquele que mete medo. "Quando o gato sai, o rato faz a festa".

Oni ga deruka jya ga dekura : Utiliza-se quando é difícil prever o que poderá acontecer em seguida.

Oni no kakuran : Doença tina que atinge alguém que aparentava ter ótima saúde.

Oni no kubi o totta yô : "Como se houvesse arrancado a cabeça do oni". Ou seja, "como se fosse um grande feito".

Oni no me ni mo namida : O Oni também chora. Isto é mesmo os mais brutos podem se revelar sensíveis.

Oni mo jûhachi bancha mo debana : Até o Oni era bonito quando moço. Tudo é bom no seu momento ideal.

Fonte: São Paulo Shimbun 03/02/2000


SÔMEN/SOBA

        Depois de arroz, o alimento mais popular no Japão são os vários tipos de macarrão, conhecidos genericamente como menrui. O macarrão vem em diversos formatos e tamanhos, e existem também inúmeras maneiras de servir.
        No verão, muitos japoneses preferem consumir o macarrão gelado, que pode ser preparado com sômen (macarrão à base de trigo, com fios delgados e compridos) ou soba (macarrão de trigo sarraceno, de coloração escura). Um estrangeiro inexperiente pode achar todos os macarrões iguais, mas, para um conhecedor do assunto, há muita diferença entre o macarrão e o molho da região de Kansai (Osaka-Kioto) e Kanto (Tóqui- Yokohama), por exemplo.
        Quanto ao modo de comer, entretanto, existe um só: deve-se sorver o macarrão fazendo tanto barulho quanto possível, para mostrar que está realmente apreciando o prato. Isso não deixa de ser curioso, já que, para os demais pratos da culinária japonesa, a etiqueta manda que sirva em silêncio.
        Há os que tentem explicar essa exceção à regra dizendo que, originalmente, o menrui era alimento da classe mais baixa. Segundo dizem, os pobres tendem a ser ruidosos, e seu modo de comer macarrão teria se perpetuado mesmo opulento Japão de hoje.

Como preparar macarrão gelado:
Veja como preparar um Hiyashi sômen.
Ingredientes:
  • 500 gramas de macarrão sômen

Para o molho:

  • 1 envelope de hondashi
  • 1 copo de shôyu
  • 10 centímetros de kombu
  • 5 copos de água

Para o acompanhamento:

  • gengibre ralado
  • 2 ovos fritos como omelete e cortado em tiras
  • nori, também em tirinhas
  • cebolinha verde

Preparo:

Cozinhe o macarrão em água fervente por 3 minutos.
Escorra e deixe esfriar.
Para o molho, leve a água ao fogo e ponha os ingredientes (hondashi, açúcar,mirin, shoyu e kombu).

Basta ferver um pouco e está pronto. Depois de esfriar, retire a folha de kombu e leve o molho à geladeira. Na hora de servir, o macarrão também deve estar bem geladinho.
Por isso, coloque algumas pedras de gelo. Tempere a gosto. Na tigelinha, coloque o macarrão, o molho e um pouco de cada um dos acompanhamentos.

Fonte: São Paulo Shimbun 10/02/2000


BONECO MECÂNICO

        Em 3 de março, celebra-se no Japão o Hina Matsuri, ou Festival das Bonecas, dia de rezar pela felicidade e saúde das meninas. Famílias que têm meninas comemoram a data exibindo, numa plataforma de vários andares, um conjunto de bonecos em trajes típicos da corte imperial, os hina ningyô.

        O hina ningyô é apenas um dos tipos de bonecos tradicionais muito conhecidos do Japão. Outro boneco muito conhecido é o karakuri ningyô, que possui algum dispositivo mecânico dentro dele (corda, mola, engrenagens etc.) para lhe conferir movimento.

       

        Segundo Seina Takanashi, um entusiasta de bonecos que escreveu um artigo num website dedicado ao karakuri (www.cnj.or.jp/karakuri/index.html), foi no século 18, meados da Era Edo, que esses bonecos começaram a aparecer no Japão. Um exame dos mecanismos utilizados nos bonecos revela em especial a influência da tecnologia européia de fabricação de relógios, introduzida no Japão por missionários jesuítas.

        Takanashi diz que, embora os bonecos mecânicos europeus também se baseassem na tecnologia relojoeira, havia algumas diferenças. Os bonecos europeus eram fabricados de modo a imitar os movimentos humanos da maneira mais perfeita possível, enquanto os karakuri japoneses, provavelmente sob influência do teatro Noh, buscavam movimentos abstratos para expressar emoções humanas.

    

       Um exemplo de boneco karakuri famoso é o que segura uma pequena bandeja para servir chá a um convidado. Quando se põe uma xícara na bandeja, ativa-se um mecanismo que faz o boneco mover-se para frente, parando quando a xícara é tirada da bandeja. Quando a xícara é colocada de volta na bandeja, o boneco retorna à sua posição original.

        Durante a Era Edo, esse tipo de boneco era um brinquedo luxuoso para senhores feudais e comerciantes ricos. Eles usavam o boneco para entreter ou impressionar os convidados. Há outros bonecos karakuri famosos, entre os quais se destacam os do estilo Takeda. Muitos bonecos adornam carros alegóricos que desfilam durante os diferentes festivais, sendo atrações à parte para o público. Cada boneco é resultado do trabalho meticuloso de um artesão, que precisa ter múltiplas habilidades, como conhecimento em carpintaria, escultura e mecânica.

 

Fonte: São Paulo Shimbun 02/03/2000



YAKUZA, O Crime Organizado Japonês

      O crime organizado no Japão é conhecido genericamente como Yakuza. O termo provém da leitura dos números 8 (ya), 9 (ku) e 3 (sa), que formam a pior combinação possível de cartas num certo jogo de baralho. O jogador que tira estas três cartas não marca ponto algum, ou seja, fica com algo completamente inútil nas mãos. Por extensão, o termo Yakuza passou a ser utilizado para se referir genericamente aos párias, aos indivíduos considerados "inúteis" para a sociedade. Estes incluíam pessoas como profissionais de jogos de azar, guerreiros renegados, bandidos errantes e vendedores ambulantes que tentam ludibriar seus fregueses.

        A imagem do Yakuza  faz parte da cultura popular japonesa desde pelo menos o século 17. É, portanto, uma instituição mais antiga que a Máfia Siciliana e outras organizações criminosas internacionais. Assim como a máfia e outras organizações do submundo, o Yakuza  segue uma estrutura hierárquica de clãs e famílias. No caso japonês, uma característica distintiva é o relacionamento do tipo oyabun-kobun (pais e filhos) que se estabelece entre chefes das gangues e seus subordinados. Aqueles oferecem proteção e orientação, estes retribuem com obediência e lealdade.

        Não há estimativas recentes sobre o número de membros do Yakuza. Em 1988, a Agência de Polícia Nacional (NPA) estimou que havia no país cerca de 3.400 grupos de crime organizado, reunindo aproximadamente 100.000 pessoas. Os três maiores grupos são o Yamaguchi-gumi, Sumiyoshi Rengo-kai e o Inagawa-kai.

      Ainda segundo a NPA, em 1989 o crime organizado japonês faturou pelo menos 1,3 trilhão de ienes (mais de US$ 12 bilhões pelo câmbio atual). Este dinheiro provém de atividades ilegais como tráfico de drogas, contrabando de armas, extorsão, agiotagem, controle de jogos de azar e prostituição. O crime organizado também atua no mercado de ações e de imóveis, operando com uma estrutura de causar inveja às grandes corporações.

Fonte: São Paulo Shimbun 16/03/2000

Conheça mais sobre o Passado e o Presente do grupo Yakuza ===>> YAKUZA, Past and Present


UNIFORME (Seifuku)

 

        Nenhum povo do mundo talvez use uniforme tanto quanto os japoneses. A maioria começa a vestir uniformes desde criança, quando passa a freqüentar uma escola. A obrigatoriedade do uniforme acompanha o jovem durante toda sua vida escolar, sendo interrompida só na época em que ele ingressa numa faculdade.

        Terminada a faculdade, porém, muitos japoneses voltam a vestir um uniforme, dependendo da profissão que abraçar ou da empresa em que for trabalhar. É curioso observar que o uso de trajes padronizados nem sempre se impõe de forma compulsória. Basta caminhar no centro de Tóquio na hora de pico para ter a impressão de que aquela multidão de salarymen usando ternos de mesmo corte e de mesma cor – geralmente tendendo para cinza-escuro ou azul-marinho – são todos funcionários de uma única corporação, a Japan Inc.

 

        A padronização não se limita a vestimenta, estendendo-se também aos adereços, como por exemplo os hachimaki (tira de pano que se ata em volta da cabeça) utilizados pelos empregados de casas de sushi. Pode-se dizer também que as tatuagens que cobrem o corpo de um Yakuza viraram uma espécie de uniforme permanente de membros do crime organizado.

        Houve uma época em que a conjuntura econômica justificava a adoção generalizada de uniformes, como por exemplo no período de escassez durante e depois da Segunda Guerra. Mas, no Japão afluente e moderno de hoje, é de questionar se esse apego a uniformes não seria anacrônico ou obsessivo.

 

        No caso dos uniformes escolares, não seria um exagero regulamentar até mesmo o tamanho dos botões – como fazem algumas escolas -- ainda mais numa fase em que os jovens buscam a afirmação de sua identidade individual? Essa cultura de uniformização compulsória não estaria por trás dos freqüentes casos de ijime (maus-tratos), em que uma criança é muitas vezes escolhida como alvo de perseguição por ser "diferente" dos colegas?

        Pode-se argumentar que o uso de uniformes é mais prático e conveniente, que eles fomentam o espírito de grupo etc. Mas, por outro lado, essa padronização forçada não seria uma camisa de força que, de algum modo, tolhe a criatividade e liberdade individuais?

 

Fonte: São Paulo Shimbun 23/03 /2000


MÁQUINA DE VENDA AUTOMÁTICA

        No Japão, onde quer que você esteja – inclusive no topo do Monte Fuji, você não precisa procurar muito para avistar uma máquina de Venda automática (jidô hanbaiki).  O Japão é provavelmente o país com maior densidade de máquinas de venda automática. Até o final do ano passado, segundo números da JVMA (Japan Vending Machine Association), havia 5.537.500 dessas máquinas em todo o país, o que dá uma média de 14,6 máquinas por km². Ou 1 máquina para cada 23 habitantes.

        Elas se espalham junto às lojas de conveniência, nos cantos das ruas, nas plataformas das estações de trem, nos parques, nos recintos de templos e santuários, em todos os lugares.  O volume de dinheiro movimentado por essas máquinas no Japão é fabuloso. O faturamento total chegou a 7,164 trilhões de ienes (cerca de US$ 67,6 bilhões) no ano passado.

        As máquinas vendem de tudo: bebidas, comida, cigarro, flores, roupas, vídeo erótico, preservativo...etc. Existem até mesmo máquinas que vendem insetos para colecionadores. As bebidas em geral (refrigerantes, sucos, chá, café, cerveja etc.) são os produtos mais comuns, ocupando no ano passado 47,8% do total das máquinas de venda automática no Japão.

         O comentarista econômico Hiroshi Takeuchi aponta cinco motivos para o Japão ter se tornado o reino das máquinas de venda automática:  

  1. O elevado custo da mão-de-obra, que inviabiliza a contratação de empregados por pequenos comerciantes;    
  2. O elevado custo dos imóveis, que dificulta a abertura de novas lojas;    
  3. O desenvolvimento de sistemas e tecnologias específicas para dar suporte a este canal de distribuição;    
  4. A transformação social que gerou maior demanda por serviços 24 horas por dia;  
  5. A excelente condição de segurança pública.

        Esta última razão é considerada por muitos como a mais importante. É provável que as máquinas não tivessem se proliferado tanto se fossem freqüentes os casos de furto ou vandalismo. E, ao que parece, este é um dos motivos que inviabilizam a adoção dessas máquinas no Brasil, onde atualmente estão restritas a ambientes fechados, que possibilitem um mínimo de vigilância.

        Mesmo no Japão nem tudo é perfeito. Os críticos citam que as máquinas de venda automática aumentam a poluição visual, atrapalham o transito de pedestres, consomem muita energia por ficar 24 horas por dia em operação e, sobretudo, deixam cigarros, bebidas e material pornográfico ao alcance de qualquer criança.

 

Fonte : São Paulo Shimbun 30/03/2000.



OUTONO, A Estação da Leitura (Dokusho no Aki)

        Os japoneses consideram o outono a melhor época para a leitura. Neste período do ano, o sol se põe mais cedo e as noites ficam mais longas, enquanto o calor do verão vai dando lugar para a brisa refrescante do outono, convidando as pessoas a se dedicarem a um bom livro.
        É outono, entre os dias 27 de outubro e 9 de novembro, que os japoneses promovem a Semana do Livro (Dokusho Shûkan), organizando exposições de livros, palestras, concursos literários e diversas outras atividades para estimular a leitura.
        O brasileito que visita o Japão pela primeira vez, em qualquer época do ano, ficará impressionado com o número de pessoas absorvidas na leitura de livros, jornais ou revistas dentro do ônibus ou do trem. Outra cena que chama a atenção nas bancas e livrarias é a quatidade de praticantes de tachiyomi, ou seja, leitura de livro ou revista no próprio local, muitas vezes sem intenção de comprar.
        O Japão é o quinto país do mundo em número de livros publicados, atrás da Grã-Betanha, China, Alemanha e EUA.         Mas, nos últimos anos, mais japoneses vêm ocupando seu tempo livre assistindo a TV ou jogando videogame, em detrimento da leitura. Um levantamento realizado pelo diário "Mainichi Shimbun" no ano passado revelou que, em média, os japoneses dedicam menos de 1 hora por dia à leitura de livros e revistas, contra quase 3 horas para TV. Em todo caso, abril é um mês em que ocorrem eventos relacionados ao livro tanto no Japão quanto no Brasil.

Fonte: São Paulo Shimbun 20/04/2000


POVO AINU

        Os ainus são uma minoria étnica que habita principalmente a ilha de Hokkaido, norte do Japão. Sua população atual é estimada em pouco mais de 20 mil pessoas. Os ainus puros são cada vez mais raros, devido a intercasamentos com japoneses. Até há pouco tempo, considerava-se que os ainus e os japoneses pertenciam a grupos étnicos distintos, sendo aqueles de origem caucasiana e estes, mongolóides.
        De fato, um ainu típico é fisicamente diferente dos demais japoneses, possuindo, por exemplo, cabelos mais espessos e abundância de pêlos no corpo. Estudos mais recentes de antropologia cultural, hematologia e outros ramos da ciência, contudo, sugerem muita semelhança entre os ainus e os japoneses do Período Jômon (8000 a.C. - 300 a.C.).
       
Há também estudos de lingüística apontando similaridades entre a língua japonesa e a língua e a língua dos ainus no que se refere à gramática e ao vocabulário.

        Seja como for, os principais líderes dos ainus consideram a si mesmos um grupo étnico diferenciado e lutam para serem reconhecidos como um povo indígena do Japão. Eles reivindicam a devolução de terras que, ao longo dos séculos, foram sendo ocupados pelos agricultores japoneses. Os ainus também querem medidas para proteger sua cultura e tradições, que gradualmente foram desaparecendo por força da assimilação promovida pelo governo. Os ainus vivem da caça e da pesca, atividades normalmente desempenhadas pelos homens.
        As mulheres se dedicam mais à agricultura, basicamente primitiva. Tatuar o rosto e os braços é uma prática comum entre as mulheres, e tanto os homens quanto as mulheres costumam usar brincos. A religião tradicional, baseada na fé em uma divindade suprema, é uma forma de adoração da natureza que gira em torno de uma crença nos espíritos associados a fenômenos e forças naturais.
        Um dos cultos religiosos mais conhecidos é o festival anual cujo clímax é o sacrifício de um urso. Os ainus capturam o urso ainda filhote, alimenta-o e, quando o animal atinge 2 ou 3 anos, é sacrificado em um ritual. Para os ainus, o urso é um visitante do outro mundo que aparece para oferecer sua carne como uma dádiva para os seres humanos. Assim, eles sacrificam o urso, comem sua carne e devolvem seu espírito ao outro mundo.

Fonte: São Paulo Shimbun 27/04/2000



ASSÉDIO SEXUAL ( Sekuhara )

 

        Um relatório divulgado na semana passada pelo Ministério do Trabalho do Japão revelou que, no ano fiscal de 99 (encerrado em 31 de março), os escritórios do governo espalhados pelo país receberam um total de 9.451 queixas e consultas no trabalho, um número 35% maior do que o registrado no ano anterior.

        Os números indicam também que cada vez mais mulheres no Japão estão denunciando os caso em que foram vítimas de assédio sexual, que está deixando de ser um tema tabu.

   

    A discussão aberta sobre molestamento sexual no trabalho é tão recente no Japão que foi preciso adotar uma expressão estrangeira para descrevê-lo: sekuhara (forma abreviada do inglês sexual harassment).

        Faz pouco tempo, o termo sekuhara apareceu freqüentemente nos jornais japoneses por causa dos noticiários envolvendo o então governador de Osaka, Knock Yokoyama, que renunciou ao cargo em dezembro passado sob acusação de ter assediado uma jovem que trabalhara em sua campanha de reeleição. Foi um dos maiores escândalos sexuais da década no país.

   

        O assédio sexual de mulheres é apenas uma faceta de um problema mais amplo, a discriminação contra as mulheres, que recebem salários menores, enfrentam maiores barreiras para a ascensão profissional e ainda são vistas como pessoas menos capazes.

        Por causa dessa cultura de pôr a mulher em segundo plano, algumas importantes multinacionais japonesas já tiveram de enfrentar no exterior ações judiciais de funcionárias estrangeiras que se sentiram vítimas de discriminação sexual.

 

Fonte: São Paulo Shimbun 11/05/2000


BANZAI ! ( Viva! )

        A palavra banzai costuma evocar, em muitos ocidentais, o passado militarista do Japão do período da Segunda Guerra. Uma cena típica que povoa a cabeça de muitas pessoas, graças a inúmeros filmes sobre a guerra, é a de um piloto suicida, com um sol nascente desenhado numa tira de pano atada à cabeça, lançando resolutamente seu avião contra um navio inimigo depois de gritar banzai!

        Ainda hoje, o banzai com esta acepção figura entre os termos que soam mais familiares para os que desconhecem a língua japonesa, ao lado de palavras como kamikaze e harakiri.Muitos ocidentais que associam o banzai a um grito de guerra ficariam surpresos se descobrissem que esta palavra tem originalmente um significado benigno e pacifista. É um vocabulário utilizado para desejar longa vida ("tomara que você vida dez mil anos") e prosperidade.

 

        Antigamente, pronunciava-se esta palavra como banzei. Era um termo utilizado como interjeição ou exclamação, sendo empregado não somente como uma manifestação de triunfo quando se vencia uma batalha, mas também para desejar longa vida ao imperador e à nação, ou para agradecer aos céus por uma chuva tão aguardada.

        Modernamente, consta que foi um estudante universitário quem primeiro gritou a palavra banzai com a intenção de dar vivas ou urras. Foi durante uma imponente cerimônia de promulgação da Constituição japonesa de 1889, no Período Meiji.

        A comunidade japonesa no Brasil também adotou o costume de gritar banzai três vezes durante ocasiões festivas. Seu sentido é totalmente pacifista, similar ao do "viva" em português.

        De volta ao Japão, ainda é possível observar, nas plataformas das estações de trem, o curioso espetáculo de um grupo de funcionários de uma empresa gritando banzai para se despedir e desejar sorte a um colega que foi promovido e transferido para outra cidade.

 

Fonte: São Paulo Shimbun 18/05/2000



POLÍCIA ( Keisatsu )

 

        Nos últimos tempos, vários escândalos envolvendo policiais, incluindo casos de corrupção e de assédio sexual, abalaram a imagem da Polícia do Japão, tradicionalmente uma das instituições de maior credibilidade naquele país. Debate-se uma revisão do sistema policial japonês, mas parece que a tarefa não será nada fácil.

        Com um efetivo de aproximadamente 26 mil pessoas, a Polícia japonesa tem uma estrutura organizacional composta pela Agência de Polícia Nacional (que atua como um órgão de coordenação) e por unidades policiais em cada uma das 47 províncias, que gozam de autonomia para realizar todas as operações policiais diárias dentro de seu respectivo território.

 

        Em cada província, o departamento de polícia divide a área sob jurisdição em postos policiais comunitários, um traço bem característico da Polícia Japonesa. Conhecidos como kôban, esses postos policiais são os elos de contato direto com as comunidades locais e ficam geralmente em lugares estratégicos, bem visíveis para todos.

        Os policiais lotados num kôban acabam se tornando figuras familiares aos moradores de cada comunidade. Eles são responsáveis não somente pela manutenção da ordem e prevenção contra crimes em sua área, como também fornece informações, cuidam de objetos achados ou perdidos e até dão conselhos.

 

         Há cerca de 15 mil kôban e chûzaisho (postos de menor porte, localizados principalmente em áreas rurais) espalhados por todo o Japão. A presença dos policiais lotados nesses postos ajudam a dar uma sensação de segurança aos moradores de cada comunidade.

        Os kôbans são um aspecto sempre elogiado do sistema policial japonês e que vem sendo copiado por outros países. A Polícia japonesa, no entanto, não é perfeita. A impunidade de policiais que comentem infrações é um dos maiores defeitos. Ativistas de direitos humanos criticam também os métodos truculentos usados pela Polícia para arrancar confissões à força.

 

Fonte: São Paulo Shimbun 25/05/2000

 

Conheça mais sobre a Polícia Japonesa ===>> Description of the Japanese Police Organization


 

DIA DE PREVENÇÃO CONTRA A CÁRIE - Mushiba Shobo Dei

        Dia 4 de junho é comemorado o Dia de Prevenção contra a Cárie no Japão. Os japoneses escolheram essa data porque o número 6 (ou junho) pode ser pronunciado como mu, enquanto 4 é shi. Juntando os dois sons à sílaba ha (dente), surge a palavra mushiba, que significa dente cariado.
        Todos os anos, o Ministério da Saúde do Japão aproveita essa data para realizar uma companha de conscientização sobre a importância de cuidar dos dentes. Durante uma semana, dentistas visitam as escolas para ensinar às crianças a forma correta de fazerem a higiene bucal. Algumas lojas de departamento também aderem à campanha, convidando dentistas a fazerem exames e consultas gratuitamente durante um certo período.

        Falando em dentes, é oportuno mencionar um curioso costume dos japoneses de antigamente, o ohaguro, que consistia em enegrecer os dentes passando neles ferro oxidado, como se fosse um batom para dentes. Consta que esse costume existia já no século 3º. Na Era Kamakura (1192-1338), o hábito se difundiu entre os homens da nobreza e da classe dos samurais. A partir da Era Edo (1603-1868), o costume de tingir os dentes de preto ficou restrito às mulheres.         Meninas com cerca de 10 a 12 anos pintavam os dentes para mostrar que haviam chegado à idade adulta. Mais tarde, dentes enegrecidos passaram a indicar senhoras casadas. Por ser uma cor imutável, o preto simbolizava a castidade e submissão de mulheres casadas.
        Embora dentes negros fossem considerados o padrão naquela época, as mulheres mais finas relutavam em exibir os dentes. Por isso, elas cobriam a boca com a mão ou com a manga do quimono na hora de sorrir. Talvez como herança desse recato, ainda hoje é possível observar que muitas mulheres no Japão tapam a boca quando riem ou mesmo quando falam.
        Na Era Meiji (1868-1912), o ohaguro chegou a ser proibido e acabou caindo em desuso. Há quem diga que o ohaguro, embora tivesse primordialmente uma função estética, ajudava a combater a cárie. Primeiro, porque, antes de colorir os dentes, as pessoas tinham de limpá-los bem. E, segundo, porque algumas substâncias utilizadas no enegrecimento dos dentes seriam eficazes contra a cárie.

Fonte: São Paulo Shimbun 15/06/2000


DIREITO / ESQUERDO - Miguite / Hidarite

        Cada cultura tem algumas regras sobre quando usar a mão esquerda ou a direita. Na Índia e na Arábia, por exemplo, dizem que é costume usar a mão direita para fazer as coisas do pescoço para cima (por exemplo, levar comida à boca) e a mão esquerda para as coisas do pescoço para baixo (por exemplo, para a higiene pessoal do toalete). No Japão também existem algumas regras.
        Ao se sentar e cruzar as mãos, os japoneses procuram cobrir a mão direita com a mão esquerda. Isso seria por causa de uma antiga influência do confucionismo e do taoísmo, que utilizam a mão esquerda para eventos felizes e a mão direita para infortúnios. Nas casas ao estilo japonês, as portas corrediças trazem usualmente o lado esquerdo por cima. No quimono, o lado esquerdo também fica por cima, exceto quando usado como traje fúnebre.

        Até a Era Meiji (1868-1912), o cerimonial da Casa Imperial determinava que o imperador se sentasse à direita de quem olha, ficando a imperatriz à esquerda. Isso porque, na Corte Imperial, o imperador se sentava voltado ao sul e, assim, o lado esquerdo ficava sendo o de hierarquia mais elevada.
        Entretanto, a partir da Era Taishô (1912-1926), inverteu-se a posição , e o imperador passou a ficar à esquerda de quem olha. Essa mudança pode ter ocorrido por influência da Europa Ocidental, onde o protocolo determina que a pessoa mais importante se posicione à direita (à esquerda de quem olha). Essa regra pode ser observada na distribuição de bonecos na plataforma para a comemoração do Hina Matsuri (Dia da Meninas no Japão, 3 de março). A mesma posição é respeitada pelos noivos durante a cerimônia de casamento.

Expressões

Migi to ieba hidari - Ser do contra.

Migi kara hidari - Imediatamente, a torto e a direito.

Miguiude - Pessoa de confiaça, braço direito.

Hidariuchiwa - (Viver com) grande conforto.

Hidarimae - Adversidade, circunstância difícil (negócio etc.).

Hidarikiki - canhoto. E também: pessoa que gosta de beber.

Fonte: São Paulo Shimbun 06/07/2000


MORROS SEPULCRAIS

        No Japão antigo, entre os séculos 3º e 7º, havia o costume de sepultar imperadores e nobres em túmulos cobertos com grande quantidade de terra, formando um monte. Tais morros sepulcrais são chamados de Kofun, e o período histórico em que eles proliferaram no Japão é conhecido como Era Kofun.
        O costume de construir grandes mausoléus parece ter sido copiado de chineses e coreanos. No Japão, os kofuns estão presentes de norte a sul, com grande concentração na região de Kinki, que engloba as províncias de Osaka, Nara e Kioto. O maior de todos os kofuns se encontra na cidade de Sakai, província de Osaka. Tem 486 metros de comprimento, 305 metros na parte mais larga e ocupa uma área total de mais de 100 mil m². Foi construído no século 5º para o imperador Nintoku. Este kofun está entre os maiores mausoléus do mundo, rivalizando com a grande pirâmide de Khufu, no Egito.
        Mediante simulação com computador, uma equipe da empresa Obayashi-gumi calculou que, mesmo utilizando tecnologia disponível hoje, a construção de um kofun deste porte levaria 15 anos e 8 meses, e um custo total de 79,6 bilhões de ienes. Um aspecto misterioso é que a maioria dos kofuns, vista do alto, tem a forma de um buraco de fechadura.
        Os kofuns simbolizavam o poder das pessoas que eram enterradas neles. Outros indícios desse poder eram os objetivo que acompanhavam o falecido, como espadas, armaduras e jóias. Em alguns casos, cavalos eram enterrados vivos com seus donos. Os artefatos mais característicos encontrados nos túmulos são as haniwa, estatuetas de argila representando seres humanos, animais etc., e que fornecem informações sobre o modo de vida da época.

Fonte: São Paulo Shimbun 13/07/2000


SABONETE ( Keshô sekken )

        Toda pessoa já deve algum dia ter brincado de fazer bolinhas de sabão. No Japão, essa brincadeira com bolinhas de sabão, chamadas shabondama, deu origem a uma canção infantil muito conhecida e que vem sendo passada de geração para geração.

        É curioso notar que a palavra shabon é uma corruptela (modo errado de escrever ou pronunciar uma palavra) que se originou do protuguês "sabão". De acordo com os registros históricos, foram os portugueses que introduziram o sabão no Japão logo que chegaram à ilha de Tanegashima, em 1543. No mundo, há registros deixados pelos sumérios indicando que já se usava sabão na antiga Babilônia há mais de 3 mil anos.

        No Período Edo (1603-1868), os sabões, ainda de fabricação estrangeira, eram utilizados apenas pelos senhores feudais, sendo considerados presentes de alto valor. Já as pessoas comuns recorriam a produtos substitutos, como escova de esfregar, farelo de arroz e água utilizada para lavar arroz.

        Além de ser um produto caro, há uma teoria de que o uso do sabão demorou a se disseminar entre pessoas comuns no Japão proque tinha a imagem de ser uma coisa própria de cristão. Em 1872, já no Período Meiji, o governo construiu em Kioto a primeira fábrica de sabão do país. Utilizava como matéria-prima a gordura bovina e o tanino de beringela. No ano seguinte, Isoemon Tsutsumi construiu em Yokohama a primeira fábrica de sabão de iniciativa privada. O sabonete (sabão aromatizado para higiene corporal) começou a ser fabricado um ano depois. Nos anos subseqüentes, foram surgindo novas fábricas e o uso do sabão e do sabonete foi se difundindo entre os japoneses.

 

Fonte: São Paulo Shimbun 20/07/2000


CASTELOS (Shiro)

        Os castelos têm uma longa história no Japão, tanto que a palavra correspondente em japonês, shiro, já foi mencionada no ano 720 na obra Nohon Shoki (Crônicas do Japão), o primeiro relato da história daquele país. Como em outros países, os castelos no Japão forma constituídos com duas finalidades principais.
        A primeira foi para fins de defesa: senhores feudais construíam fortalezas onde pudessem se retirar durante um ataque. O segundo objetivo de um castelo era pura ostentação: uma forma de um senhor feudal exibir riqueza e poder.         Durante o período de guerra entre senhores feudais pela disputa de territórios, literalmente centenas de castelos foram erguidos em todo o Japão. Para proteger os territórios que ocupavam, os senhores feudais passaram a construir castelos cada vez maiores e mais complexos.

        O primeiro dessa geração de castelos mais fortificados foi o Azuchi_jô, construído por Oda Nobunaga, em 1576. De simples fortaleza militar, os castelos foram se tornando centros administrativos e passaram a atrair moradores em volta. A construção de castelos levou ao desenvolvimento de muitas das grandes cidades do Japão de hoje, inclusive Tóquio.
        O período de guerra chegou ao fim em 1615, quando Tokugawa leyasu unificou o país sob um só governo. Com isso, a importância dos castelos diminuiu, mas eles se mantiveram como símbolos de autoridade. Com a restauração Meiji, em 1868, o novo regime adotou uma lei determinando a demolição das indesejáveis relíquias do feudalismo.

        Até 1875, foram desmantelados mais de 2/3 dos 170 castelos que havia no Período Edo. Depois disso, outros castelos forma destruídos por incêndio, terremotos e durante a Segunda Guerra. Por outro lado, o renovado interesse pela história e pela preservação da memória levou à restauração de muitos antigos castelos. Hoje, 37 castelos no país são protegidos pelo governo como "importantes propriedades culturais" ou "tesouros nacionais". Eles viraram centros de turismo, embora poucos tenham partes originais dos antigos castelos.

São Paulo Shimbun 27/08/2000

Veja alguns dos mais bonitos castelos do Japão ===>> Japan's Castle - Some Beautiful Castles of Japan


SAKÊ

        A bebida alcoólica está presente desde a antigüidade . Conta-se que no Egito, há 5 mil anos, Deus Osíris concedeu às pessoas o conhecimento sobre a cerveja. Na mitologia japonesa também temos as divindades Ookuninushi no mikoto e sukuna hikona no mikoto como Deuses do Sakê. Diz a história que, na segunda metade do século oito, foram admitidos em Heiankyo (atual Kioto) os encarregados de produzir sakê para o Palácio Imperial.
        O sakê era uma importante oferenda nas atividades religiosas e com isso surgiu o costume de saboreá-lo nestas ocasiões. Também foi muito utilizados em festividdes ligadas à agricultura, em casamentos e despedidas. O sakê refinado tornou-se popular na Era Edo, segunda metade do século 18, e seu consumo anual foi de 1,8 milhão de tonéis, sendo que a população de Edo era de 1 milhão de pessoas. Isto implica em um consumo diário de 541,11cm³ por habitante.

        Para produzir uma sakê refinado de bom sabor é necessário um arroz de qualidade, boa água, tonel também de boa qualidade como o fabricado como o pinheiro de Yoshino, um competente especialista em fabricação, temperatura propícia para a fermentação, entre outras condições. Por isso, desde a Era Edo já eram famosos os Kikumasam une de Nada (atual província de Hyogo) e Gekkeikan de Fushimi (Kioto).
        Há dois tipos de sakê refinado: o karakuchizakê (sakê seco com teor alcoólico acima de dois graus) e o amakuchizakê (sakê doce). Dizem que em épocas de prosperidade, proporcionalmente à estabilidade do momento, a preferência recai sobre o karakuchi, cujo paladar não cansa o consumidor e, em épocas de recessão, passa a ser maior a procura por amakuchi, que traz saciedade com uma quantidade menor.
        Parece que atualmente o amakuchizakê está em alta. Indispensável nas festividades e nas horas de lazer, o sakê era também apreciado nos comes e bebes nas platéias, durante a apresentação de teatros como o Kabuki. Inclusive hoje, os assalariados se dirigem após o expediente para beber em bares e barracas ambulantes para dissipar o estresse gerado no trabalho.

        O número de mulheres que apreciam sakê também tem crescido a cada dia, inclusive sabe-se que há cada vez mais mulheres que bebem em casa, as denominadas "Kichen dorinkaa" (as que bebem na cozinha). No Brasil, com a difusão da culinária japonesa, tem aumentado o número de brasileiros que degustam o masuakê (sakê em copo quadrado) para acompanhar sushi ou sashimi. Parece que o atsukan (sakê aquecido) ainda não entrou na moda.
        Dizem que a bebia alcoólica é o melhor dos remédios e , atualmente, com a informação de que o polifenol contido nos vinhos traz benefícios para a saúde, sua venda aumentou bruscamente; especialmente a importação de vinhos franceses.

Fonte: São Paulo Shimbun 03/08/2000


A HISTÓRIA DO SAL

        Jogar sal no próprio corpo antes de entrar em casa, logo ao retornar de um sepultamento, é um hábito que pode ser verificado mesmo nas famílias nikkeis que residem neste país. Este ritual tem por objetivo afastar de si o espírito do falecido e também purificar-se.
        O sal é também usado com freqüência nas casas comerciais, sendo colocado na área frontal da loja logo após a limpeza matinal. O fato de os lutadores de sumô espalharem sal na arena também tem o siginificado de purificar o local e a si próprio. O sal sempre foi indispensável nos cultos aos Deuses, assim como no cotidiano. Existe, inclusive, um ditado que diz que aqueles que desperdiçam sal tornar-se-ão cegos.
        Em qualquer país o sal é o símbolo de purificação e mistério. Significa também boas vindas e há várias outras conotações como amizade e bem querer. Nas sociedades antigas, o sal era tido como preciosidade, sendo utilizado nas cerimônias religiosas e, às vezes, até como moeda. Por ser um recurso natural de suma importância para as finanças do país, tanto no Oriente como no Ocidente, o sal sempre foi objeto de tributação e monopolização.

        A palavra "salário" tem como origem "salarium" do Latim, que significa sal. Na antiga Roma, os salários dos funcionários públicos e militares eram pagos com sal, assim como na antiga Grécia, praticava-se troca de escravos por sal. Com relação á extração de sal no Japão, o processo utilizado na antiguidade era o de banhar algas com água do mar e obter o sal secando no fogo.
        A partir das Eras Nara e Heian, o sal passou a ser produzido por salinas em várias regiões do país e, por estar a produção restrita a regiões da orla marítima, logo tornou-se objeto de comercialização, assim como ocorria com o arroz.         Na Era Edo, cada feudo incentivava as atividades das salinas para fomentar a indústria e as finanças, especialmente na região do mar interior de Seto. Na Era Meiji, as províncias ainda eram autosuficientes na sua produção, até que foi estabelecido o sistema de monopólio devido a entrada de sal importado, a preço inferior, no mercado. Até 1918 a produção de sal era tida como um meio de proporcionar receitas ao cofre público. Posteriormente, passa a ser priorizado o aspecto de interesse público, com medidas de estabilização do preço e proteção à indústria produtiva.

        Em 1972 todas as salinas foram fechadas devido a uma lei que objetivava a modernização do setor. A partir disso, o sal utilizado na cozinha passou a ser o cloreto de sódio com quase 100% de pureza. Em 1997 o monopólio chega ao fim, passando a ser autorizada a produção do sal natural extraído das águas do mar que, para alegria dos naturalistas, está resurgindo aos poucos em várias regiões litorâneas.
        O sal é indispensável à sobrevivência, pois sua função é a de infiltrar-se ao sangue para melhorar o metabolismo das células, por exemplo. Como o sal é eliminado através do suor e urina, cada adulto precisa consumir de 10 a15g diariamente.

Expressões :

Aona ni shio : Desanimado, triste.

Shio o tatsu : Deixar de consumir sal por um tempo para cumprir uma promessa.

Shio o fumu : Lançar-se ao mundo e conhecer as dificuldades .

Fonte: São Paulo Shimbun 24/08/2000


CÁLCULOS COM SOROBAN

        É freqüente os japoneses viajarem pelo exterior e estranharem a demora do troco ao fazer compra. Para eles, é natural determinar imediatamente o valor do troco pelo cálculo mental, mas percebem que no exterior as coisas não funcionam assim. Por trás dessa facilidade em fazer cálculos mentais existe uma história de 400 anos de difusão de soroban (ábaco).
        A educação no Período Edo tinha como centro "a leitura, a escrita e o soroban". Parece que, atualmente, com a proliferação das calculadoras eletrônicas, está surgindo uma geração com dificuldades em fazer contas ou cálculos mentais. Na competição, realizada entre um dos primeiros modelos de calculadora eletrônica e um expert em soroban, a vitória foi do soroban.

        Contam que a denominação soroban, originou-se de "suan-p' an" a língua chinesa. Das escavações de um templo à beira do rio Eufrates, foi encontrado um ábaco de terra e areia de aproximandamente 5.500 anos a.C., o que faz acreditar que, historicamente, este tipo de ábaco, denominado "abacus" era usado desde os primórdios da história da humanidade.
        Este tipo de ábaco consistia em uma tábua de argila dividida em linhas, representando cada qual um algarismo, sobre os quais se moviam pequenas pedras para calcular. Na Grécia e Roma antigas, este instrumento evoluiu para o ábaco de linha, sendo utilizado também na Europa da Idade Média. Com a difusão dos números arábicos, os cálculos passaram a ser feitos por escrito e o "abacus" desapareceu do cenário a partir do século 16 e, mesmo na Alemanha, no início do século 18.
        Nos registros históricos da China antiga, a palavra soroban aparece só na segunda metade do século 16. É um instrumento que tem duas pedras acima da divisória e cinco pedras abaixo dela. No entanto, a forma de calcular já havia sido registrada na Dinastia Khan (a.C.). O soroban reconstituído dessa época possui uma pedra acima e cinco pedras abaixo da divisória. No Japão, o soroban foi introduzido por mercadores da China no final do período Muromachi (final do século 16), em Nagasaki e Sakai. Sua difusão entre a população ocorreu a partir do Período Edo.

        São chamados de soroban antigos aqueles que tem duas pedras acima da divisória .A partir desse método de calcular, surgiu uma forma diferente de matemática, a chamada wasan. Em 1872,a após a Restauração de Meiji, ocorreu a reforma no Sistema Educacional que passou a seguir o sistema ocidental de educação. Desde então, o cálculo wasan e o soroban foram abolidos do ensino público, não desaparecendo, no entanto, do cotidiano do povo.
        A partir do ano seguinte foi autorizado o uso concomitante do soroban também em ensino público . Atualmente, o ensino púbico. Atualmente, o ensino do soroban faz parte da aulas de matemática do 4º ano do ensino primário; porém, fica limitado a explicações e nas formas mais básicas manusear.

São Paulo Shimbun 31/08/2000


ARTESANATO EM VIDRO

        Dizem que o vidro surgiu no Egito, por volta de 3.600 anos. A primeira peça de vidro foi uma bola feita com um material que até então era usado como revestimento para objetos de cerâmica e, em seguida, foram feitos pequenos vasos e garrafas. Esse material, os objetos de vidro, bem como a técnica de produção, chegaram à China através de silk road, juntamente com a seda.

        Por volta do século 4, surgiu pela primeira vez no Japão a bola de vidro, mas seus fragmentos existem desde a Era Yayoi, há 2 mil anos. No século 4, ainda não era possível no Japão a produção própria. Importava-se então da China, blocos de vidro coloridos, que eram transformados em bolas de vidro para fins ornamentais.Dizem que também no período Heian era um produto muito valorizado na corte imperial, assim como entre os nobres. Nos Períodos Kamakura e Muromachi foi utilizado em cerimônias nos templos budistas. Em 1549, chegou ao Japão o jesuíta português Francisco de Xavier e este presenteou o daimiô cristão Yoshitaka Ouchi (1507-1551) com um espelho de vidro e óculos para hipermetropia. Estes foram os primeiros objetos de vidro da Europa Moderna que chegaram ao Japão. Após isso, vários objetos de vidro foram importados por jesuítas portugueses.

       
        Na Era Edo havia fabricações caseiras de vasilhas de vidro em Edo, Osaka e Nagasaki, expandindo posteriormente para Kagoshima, Saga, Fukuoka e Yamaguchi. O atual vidro lapidado de Satsuma teve como origem a fabricação de embalagens de vidro para medicamentos. Narioki Shimazu (1791-1859), senhor do feudo de Satsuma, construiu dentro do seu feudo um laboratório para fabricação de medicamentos e trouxe de Edo os artesão de vidro para fabricar recipientes. Posteriormente, já na geração de Nariakira Shimazu (1809-1858), teve sucesso em produzir vidro lapidado de coloração rubra, utilizando corante da mesma cor. Passou a produzir pratos, vasos, garrafas e até jubako (recipientes sobreponíveis para alimentos).

        Dizem que no final da Era Edo, o número de seus operários passou de 100. No entanto, com a morte de Nariakira a produção do vidro lapidado de Satsuma decaiu rapidamente. Atualmente, se encontra recuperado e em plena atividade, sendo muito bem conceituado não só no Japão como no mundo inteiro. Em 1873 - Era Meiji, o governo instalou em Tóquio uma fábrica de vidro, começando uma produção em grande escala de vidraças, destinadas principalmente para a cnstrução civil. A utilização de vidro nas artes manuais iniciou-se com a exposição do trabalho de Toshichi Iwata, que se destacou aos olhos do público em uma exposição de arte promovida pelo Ministério da Educação no início da Era Showa.

 

Fonte: São Paulo Shimbun 14/09/2000


DICIONÁRIO

        Será lançado no próximo mês a primeira edição do "Dicionário Prático Português- Japonês", resultado de um trabalho em conjunto entre a Aliança Cultural Brasil-Japão e Editora Melhoramentos. Trata-se de um dicionário de médio porte, com 33 mil verbetes e a tiragem desta primeira edição será de 5 mil exemplares, a serem distribuídos às grandes e especializadas livrarias. O preço estimado é de R$54,00.
        Os dicionários de português-japonês até agora disponíveis no mercado tinham como objetivo atender necessidades dos japoneses, de forma que as explicações eram totalmente grafadas em caracteres japoneses. Este dicionário, que está sendo colocado no mercado, traz a explicação em caracteres japoneses e, em seguida, em alfabeto ocidental, o que facilitará em muito o uso pelos estrangeiros que estudam japonês.

        Outro aspecto relevante é que este dicionário faz parte de série Michaelis de Dicionário Português-Língua Estrangeira e, por esse motivo, a seleção de verbetes também está apropriada para atender às necessidades dos estrangeiros. É claro que as expressões peculiares da língua japonesa também estão incluídas. A elaboração deste dicionário teve início em 1996, tendo como principais colaboradores os professores da Aliança Cultural Brasil-Japão e levou quatro anos para ser concluída.
        Espera-se que seja amplamente utilizado pelos estudantes de língua japonesa em regiões onde é falado o português. Muitos dicionários de português-japonês e japonês-português já foram publicados no passado, entre os quais o mais antigo dicionário japonês-português é o "Vocabulário da Lingoa de Iapan", com a declaração em português, publicado no ano de 1603, em Nagazaki. No ano de 1604, saiu o suplemento.
        Atualmente, existem apenas quatro exemplares originais deste dicionário no mundo todo. Há, no entanto, exemplares em tamanho original publicados pela editora Benseisha e também pela Livraria Iwanami, reproduzido a partir das microfichas guardadas em Bodleian Library da Universidade de Oxford, Inglaterra (diga-se de passagem que nesta universidade foi construído um belo centro de pesquisa da cultura japonesa pela Nissan Corporation).
        Os exemplares originais da edição bolso da Bodlei foram feitos com papel japonês e tinta japonesa de boa qualidade, utilizando pela primeira vez no Japão a técnica ocidental de tipografia calcografada. Citando a explicação dada pelo Tadao Dói na edição Iwanami, este dicionário foi elaborado pelos padres e freiras da Companhia de Jesus do Japão, tendo como objetivo a difusão do cristianismo naquele país.

        Especialmente os missionários confessores e pregadores tinham a necessidade de estudar a língua japonesa,para compreender e explanar : os primeiros precisavam ouvir e entender com clareza os fatos confessados pelos seus seguidores e, para tanto, era necessário conhecer dialetos regionais e linguagens pouco refinadas. Os últimos tinham necessidade de conhecer e dominar a linguagem mais refinada e a linguagem padrão para que seus ouvintes da classe alta e da camada culta da sociedade pudessem ouvi-lo com satisfação.
        O número de verbetes contidos no dicionário chega a mais de 32 mil e não traz a escrita em kanji. Os tratados sobre a gramática e a escrita japonesa foram elaborados à parte, porém, dizem que há aspectos incompreensíveis para pessoas da atualidade devido ao componente cristão que a Companhia de Jesus atribuía à linguagem e também devido às explicações baseadas no conhecimento gramatical (latim) que possuíam. Por exemplo, as palavras amor e paixão (ou amar, apaixonar-se) eram considerados indecentes por se tratarem de amor entre as pessoas e não amor a Deus.
        Da mesma forma, pederastia, que ocorria entre samurais e monges, também era tido como um temeroso pecado que nem deveria se pronunciado. Este dicionário português-japonês é de suma importância, indispensável para a história da língua pátria.
        Isto porque, o ano de 1603 foi o ano em que se formou o governo feudal de Tokugawa, correspondendo a uma fase de grandes mudanças, da Idade Média à Idade Moderna. Porém, infelizmente, não há nenhum dicionário produzido por próprios japoneses que tenha registrado a linguagem utilizada pelo povo nesta época.
        O mundo vivia a Era das Grandes Navegações e era forte o interesse pelos países desconhecidos visando a ampliação do território e difusão do cristianismo. Em 1543, chegaram os primeiros portugueses á ilha Tanegashima e, em 1549, foi iniciado o movimento de catequese pelo Frei Francisco de Xavier.

Fonte: São Paulo Shimbun 21/09/2000


 

OUTUBRO

 

        O mês de outubro é chamado de Kannazuki ou de Kaminazuki de acordo com o calendário antigo (literalmente mês sem Deus), procedendo esse nome da lenda que diz que nesse mês todos os Deuses reuniam-se no Grande Templo de Izumo para celebrar união entre homens e mulheres.
        Por conseqüência, os Deuses ficavam ausentes em outras regiões. Há os que atribuem a origem do nome pelo fato de não haver trovões nesse mês. Dizem ainda que se chama Kaminashizuki por ser o mês em que se faz a fermentação de cereais colhidos para fabricar o sakê.
        O Grande Templo de Izumo fica na Província de Shimane, onde é cultuado o Ookuninushi no mikoto que, de acordo com a mitologia do Fuudoki (registro da história, geografia e mitologia de cada região), fez um bom governo juntamente com seus irmãos e transmitiu ensinamentos sobre usos de simpatias e medicamentos. Conta-se que ele passou o território para as mãos de Ninigi no mikoto e passou a viver em retiro na região de Izumo.

        Há uma outra versão contada na mitologia kuniyuzuri em que, derrotado pelas forças oriundas de Yamato, refugiou-se sem Izumo. Dessa forma, os nomes dos meses do antigo calendário estão estreitamente relacionados com a natureza.         Pode-se perceber através deles que as pessoas da antigüidade tinha um ciclo de vida centrado na agricultura e em harmonia com a natureza. Em especial, os termos ligados ao cultivo do arroz são mais freqüentes e ainda hoje são utilizados ao escrever cartas.

 

A seguir enumeradas estão as origens, porém estão citadas apenas as mais correntes.
        Também no calendário ocidental, os nomes dos meses possuem cada qual a sua origem, de modo que, tanscritos na forma de números perdem a sua graça e a beleza da sua sonoridade. A seguir, os nomes dos meses segundo o antigo calendário e as origens dos mesmos.

 

Primavera

 

Janeiro (mutsuki): Mês em que põe de molho na água os primeiros grãos de arroz produzidos naquele ano. Por ser o mês em que as pessoas confraternizam para festejar o início do ano.

 

Fevereiro (kisaragi): Significa época em que as plantas renascem.

 

Março (yayoi): Originou-se de iyayoi que traz a idéia de maior exuberância adquirida pelas plantas.

 

Verão

 

Abril (Uzuki): Mês em que floresce u no hana, flor de uma espécie de saxífraga.

 

Maio (satsuki): Forma abreviada de sanaezuki. Mês em que se planta as primeiras mudas de arroz.

 

Junho (minazuki): Por ser época de estiagem e falta de água, e também minazuki por se época de irrigar as plantações de arroz.

 

Outono

 

Julho (fumizuki): Originou-se de fufumizuki, ou seja, mês em que os grãos de arroz começam a se formar. Também pelo fato de pôr os livros aos sol para evitar que sejam estragados por insetos.

 

Agosto (hazuki): Significa perder as folhas. Por ser época de hohari, ou seja, do desenvolvimento dos cachos de arroz.

 

Setembro (nagatsuki): Existem versões como forma abreviada de inakaritsuki, ou seja, mês da colheita de arroz, ou ainda, por se o mês em que a noite passa a ser mais longa.

 

Inverno

 

Outubro (kannazuki): Mês em que segundo a lenda todos os Deuses se reuniam no Grande templo de Izumo.

 

Novembro (shimotsuki): Forma abreviada de shimooritsuki , mês das geadas, ou ainda, forma abreviada de shiteosamezuki, que significa mês de depositar os grãos colhidos.

 

Dezembro (shiwasu): Pelo fato de os monges percorrerem várias localidades para realizar leituras de sutra. Pode se ainda interpretado como toshihatsuru, ou seja, o findar do ano.

 

Fonte: São Paulo Shimbun 28/09/2000.

 


MAPA DO JAPÃO

        Na segunda metade do século 13, quando Marco Polo escreveu o registro sobre sua viagem pelo Oriente, já existia na Europa o mapa-mundi e uma visão ampla sobre o mundo. Devido a isso, ao iniciar a exploração do Oriente na época das grandes navegações, considerava-se indispensável o mapa dos mares orientais.
        O primeiro mapa do Japão conseguido pelos portugueses, que por sua vez foram os primeiros estrangeiros a chegarem àquele país, era o chamado de gyoukizu, baseado no qual foi produzido em Portugal, no ano de 1595, o primeiro mapa do Japão impresso em um país estrangeiro. Comparando os dois mapas, o produzido em Portugal já está mais aperfeiçoado, porém o tamanho do Honshu (ilha principal) ainda é desproporcional e não consta a ilha de Hokkaido.

        Diz-se que o gyoukizu, o mais antigo mapa do Japão, é obra do Bonzo Gyouki (668-479) do Período Nara; porém não há nenhuma prova concreta sobre isso. O bonzo Gyouki foi um alto dignitário do Budismo que se dedicou na difusão da doutrina budista percorrendo todo o país na arrecadação de fundos para construção do Templo Toudaiji e construiu lagos, canais, pontes e estradas em várias regiões do país, havendo possibilidades de ter feito medição de terras nesse entremeio, porém mais parece ser uma crendice popular que o mapa seja de sua autoria.
        De qualquer forma, o mapa foi utilizado entre o final do século 11 até a Idade Média. O mapa gyoukizu, que existe ainda hoje, está conservado no Templo Ninnaji, em Kyoto, e é datado de 1305.
        Em obra impressa, temos shuugaishou, uma espécie de enciclopédia publicada no final do século 16 e por todo o século 17. Em 1605, Leyasu Tokugawa ordenou a todos os feudos do país que elaborassem mapasa territoriais em desenho e, assim, no Período Edo, na Idade Moderna, foi concluído o mapa do Japão Keichou.
        Em 1644, com uma nova ordem do governo feudal, foram reunidos os mapas regionais, a partir dos quais Ujinaga Hokujou elaborou o mapa Shouhou Kuniezu na escala 1:432 mil. Trata-se de um mapa minucioso, porém não incluía Ezo (Hokkaido).
        Em 1800, ano em que a movimentação russa nos mares próximos de Hokkaido se intesifica e aumenta a pressão para a abertura do país, Tadataka Inô, um fabricantede sakê da Província de Chiba que possuía um grande interesse por estudos sobre calendários, inicia juntamente com um especialista em astronomia a medição das terras de Hokkaido e das demais terras de todo o Japão, concluindo assim, em 1821, o Grande Mapa da Costa Litorânea do Japão.
        Tadataka Inô falece em 1818, antes da conclusão desse mapa. É um trabalho de grande precisão que, comparado aos mapas de hoje, apresenta uma diferença inferior a um milésimo para cada grau de latitude. Atualmente, há 214 desses grandes mapas com escala de 1:36 mil. Foi esse mapa a causa do posterior "caso Siebold".
        O alemão Philipp Franz Von Siebold veio ao Japão, em 1823, como médico de uma casa comercial holandesa, permanecendo lá durante cinco anos coletando materiais para pesquisa sobre o Japão, principalmente na área de Dejima, em Nagasaki.
        Siebold recebeu do astrônomo Kageyasu Takahashi um exemplar desse mapa, em Edo. Em 1828, na sua viagem de retorno, o navio encalhou na baía de Nagasaki, quando foi encontrado no interior do navio esse mapa e, na ocasião, era expressamente proibida a saída dos mapas para o exterior.
        Siebold permaneceu durante um ano em liberdade vigiada pelo governo feudal, após o que, foi deportado. Kageyasu Takahashi, que o presenteou com o mapa, foi preso e morreu na prisão. Porém, o mapa foi copiado durante a madrugada, antes do seu confisco e, desta forma, foi parar na Alemanha.
        Constou mais tarde da sua obra "Nippon" e fez com que os europeus tinham daquele país, do Jipang imaginário para o Japão real. Atualmente, a confecção dos mapas do Japão estão a cargo do Instituto do Território Nacional e Geografia, pertencente ao Ministério das Obras Públicas.

Fonte: São Paulo Shimbun 05/10/2000


INCÊNDIO

        Antigamente diziam que "incêndio e briga, são flores de Edo". Edo prosperou como o centro do governo feudal, abrigando uma grande população (no início do século 18 já era uma cidade com população de 1 milhão de pessoas, superando Paris e Londres), que formava aglomerações de residências e, por serem elas construídas de madeira, freqüentemente ocorriam incêndios. Nessas ocasiões, o grupo de combate aos incêndios atuava ostentando os vistosos matoi que era o seu símbolo, tornando o incidente um espetáculo.
        A referência à briga se deve ao fato de serem os Edokko (habitantes de Edo) muito impacientes, assim provocavam violentas contendas com muita freqüência. Diziam que aqueles que dedicassem morar na parte baixa de Edo precisariam preparar-se para passar por um incêndio a cada três anos. Isso se refletiu até nas construções que, ao invés de priorizar o aspecto da durabilidade, construíam algo que simplesmente servisse para a sua finalidade.
        Percebe-se a diferença entre o Japão com sua cultura de madeira e a Europa com a cultura de pedra. De acordo com os dados de Saiishi, livro de registros de catástrofes, entre os anos de 552 e 1865, foram constatados nada menos que 1.463 incêndios, dos quais um terço foi de grandes proporções. Foram incêndios causados por guerra, raios dos trovões, terremotos ou por simplesmente negligência, entre outras causas.
        O incêndio com maior número de vítimas da história de Edo foi o Meireki no Taika ou Grande Incêndio de 1657 que começou no Templo Honmyoji situado em Hongo Maruyama (atual bairro de Bunkyo, Tóquio) e continuou a queimar por dois dias, destruindo a metade da cidade, inclusive o Castelo Edo, totalizando um número de 100 mil mortos.

        Além desse, há um outro famoso incêndio, o de Yaoga Oshichi, freqüentemente utilizado como tema para Kabuki e literatura. Oshichi era filha de um comerciante de hortaliças que, na ocasião do Grande Incêndio do ano 3 Tenwa, refugiou-se no Templo Kichijoji, em Kamagome, onde conheceu o Kichisaburo, que trabalhava no templo como ajudante de afazeres e os dois fizeram a solene promessa de união.
        No entanto, sua família lhe impôs casamento com outra pessoa. Oshichi, desejando reencontrar o seu amado, provocou um incêndio. Ao ser descoberta, foi presa e arrastada por toda a cidade de Edo e por fim, executada em Suzugamori. Foi um fato real que Saikaku Ihara transformou em romance e cativou o público.
        Kichisaburo, segundo contam, suicidou-se praticando seppuku (ato de cortar a própria barriga). Com relação aos métodos de prevenção contra incêndios e flagelos existem registros já no século 7, mas só ganhou força na Era Edo, no século 17.
        Organizou-se uma estrutura de plantão composta por grupos como Daimiô Hikeshi, formado por iniciativa do Senhor Feudal e Machibikeshi,formado pela população. Vários terrenos da zona urbana foram limpos para serem utilizados como refúgios, ordenou-se a instalação de reservatórios de água em toda as casas, foram designados guardas para patrulhamento diurno, instalou-se torres de observação de incêndios, proibiu-se a queima de fogos de artifício na zona urbana e incentivou-se a utilização de telhas para a cobertura das casas.
        Foi também estipulado que aqueles que causarem incêndios ficariam condenados a passar algumas semanas com as mãos amarradas, e não só a própria pessoa como também o proprietário da casa e toda a cidade assumiriam responsabilidades solidárias.
        Os samurais vítimas do infortúnio teriam empréstimos com prazo de 10 anos para a devolução, assim como adiantamento em forma de arroz e os habitantes da cidade teriam também empréstimo nas mesmas condições e isenção de contribuições por cinco anos.
        São numerosas as crendices em torno de incêndio como: se capturar lavandisca (uma espécie de pássaro) ou matar sapo, sofrerá incêndio. O canto do corvo ou do galo, ou ainda, o uivo da raposa durante a noite é prenúncio de incêndio. Imitar galo provoca incêndio. A ausência de ratos é prenuncio de incêndio.
        Gravar a palavra água na viga da casa quando esta é construída protege contra incêndio. Durante o ano de 1998 foram registrados 54.514 ocorrências de incêndio, com total de 2.062 vítimas fatais, o que implica em uma média de 149 ocorrências e 5,6 mortes por dia.
        A principal causa que corresponde a 23% dos casos é, para a nossa surpresa, incêndio criminoso, seguido de 10% causado por cigarro, 10% por fogão de cozinha e 5% por fogueiras. O prejuízo computado foi de 146 bilhões de ienes. Realmente, cuidado com fogo é assunto que deve ser levado à sério!

Fonte: São Paulo Shimbun 12/10/2000


PINTURA EM DIVISÓRIAS

        Shoji (portas corrediças de madeira treliçada, fechadas com papel fino), fusuma (portas corrediças de papel encorporado) e byobu (biombos) com belos desenhos estampados são peças da mobília que desde a antiguidade tem grande afinidade com construções japonesas.
        Especialmente no shindenzukuri, estilo arquitetônico do Período Heian, em que não havia divisórias claras entre ambiente interno e externo, o biombo foi muito valorizado como peça de uso interior dobrável e móvel, cuja finalidade era proteger-se do vento.
        São peças formadas a partir de armações retangulares cobertas de tecido ou papel que são presas umas às outras. As compostas de seis armações são chamadas de rokkyoku issou, mas há também os de quatro ou de duas armações. Variam também conforme altura, podendo ser yonshakubyoubu (1.20m) ou rokushakubyoubu (1,80), e também conforme a estampa em karae byoubu (em motivos chineses), yamatoe byoubu (com motivos japoneses) etc.
        Trata-se de peças utilitárias e ao mesmo tempo decorativas. A história de biombo remete às Dinastias Chinesas Shu e Kan (séculos 11 e 3 a.C), mas o biombo dobrável começou a ser utilizados na Dinastia Toh (séculos 7 a 10). Peças recebidas da China e Coréia como presentes ao Imperador eram utilizadas com muito apreço na Corte Imperial, sendo algumas delas conservadas ainda hoje no shosoin.
        No Período Heian, o biombo era considerado peça indispensável na mobília dos palacetes da nobreza. Foi também utilizado em cerimônias nos templos budistas. A partir do Período Muromachi, as residências dos samurais passaram para o estilo Shoinzukuri, que valorizou muito o shoji (shoji da época equivale ao fusuma de hoje) e o biombo que se tornaram um espaço para apresentar pinturas yamatoe, florescendo assim a arte da pintura das belíssimas paisagens de montanha e água, flores e pássaros.
        Até o Período Muromachi era forte a tendência à pintura shibokuga (pintura em tinta nanquim), mas gradativamente foi-lhe sendo acrescentado o colorido. Isto foi resultado do intercâmbio entre os monges zen e a classe dos samurais. Há inclusive um biombo ilustrado com a presença de portugueses e espanhóis que chegaram no século 16, pintura essa denominada Nanhan byoubu.
        Posteriormente, surge o suntuoso kinpeki shoubyouga, um estilo de pintura nos bimbos, fusuma e shoji que utiliza ouro aplicado com pincel e broxa. Os temas são plantas, bambus e pinheiros, sendo mais freqüente o pinheiro. Boa parte dessas pinturas trazem elementos de bom agouro ou cerimoniais como tartaruga, grou, pato mandarim, pavão, fênix, entre outros.
        Estas pinturas passaram a ser usadas também em afrescos de paredes internas e divisórias, desenvolvendo notavelmente. Procurou-se com isso trazer para os palácios residenciais e castelos, símbolos do poder de domínio dos governantes, um ambiente solene como o dos templos xintoístas.
        E a pintura kinpeki shobyoga era exatamente o que atendia a esse anseio. O espaço reluzente criado por essa pintura traz variados efeitos no interior do recinto. O reflexo da luz produz um efeito delicado sobre a areia alva, assim como no verde das nascentes do jardim frontal. À noite, a luz de velas ou fogueiras, o brilho é misterioso.
        Foi uma regalia reservada para altas classes sociais devido à preciosidade do ouro. Desde o princípio da Era Moderna até o final do governo feudal de Edo, foi o grupo dos Kanou que reinou no universo desta arte de shobyoga, cuja base foi criada por Kanou Eitoku, 1476-1559, que uniu as técnicas chinesa e japonesa da pintura com tinta nanquim, foi reconhecido pelos grandes comandantes militares do período de guerras civis, principalmente Toyotomi Hideyoshi e, posteriormente, foi controlada pelo seu clã, seus descendentes e discípulos.
        Seu neto Kanou Eitoku (1543-1590) desde pequeno foi reconhecido como gênio nessa arte, recebendo inclusive orientação direta do seu avô Genshin. Foi ele quem produziu as pinturas nas paredes e em biombos dos castelos Azushi-jo de Nobunaga e Osaka-jo de Hideyoshi. Não só pela escala do seu trabalho, mas também pela magnanimidade dos seus traços, o impacto transmitidos pelas suas obras indentificavam-se perfeitamente com o espírito de luta dos guerreiros que viviam numa fase de grande turbulência social.
        Devido a isso, recebia inúmeras solicitações de Daimiôs da época. Muitos dos trabalhos cuja autoria consta como sendo dele, são obras realizadas em conjunto pelo seu grupo através da divisão de tarefas. Dizem que a sala de audiência, por exemplo, por ser um local importante, foi pintada pelas suas próprias mãos. A pintura shohekiga dos Períodos Azuchi-Momoyama, cheia de suntuosidade e esplendor, representa a arte japonesa perante o mundo, sendo motivo de grande orgulho.

Fonte: São Paulo Shimbun 26/10/2000


KAIMYOO

        Faleceu há algum tempo a imperatriz Nagako, esposa do já falecido imperador Showa, e foi publicado que será a ela atribuído o nome póstumo de Kojun, elevando-a pelos seus méritos. Este costume não é exclusivo da família imperial; no Japão todo adepto do budismo, ao falecer, recebe do monge um nome denominado Kaimyoo. Na seita Shinshu a denominação é Hoomyoo e na seita Nichirenshu, hoogoo.
        Trata-se da troca do nome secular daqueles que receberam os cinco mandamentos, os 10 mandamentos ou os mandamentos de Bodhisattva por um nome religioso, significando que aquela é uma pessoa que converteu-se ao budismo e despertou para iluminação búdica.
        Na Índia não há o chamado Kaimyoo, pois assim como ocorreu com o Sakya, ao iniciar-se no budismo, abandona-se o nome da família mantendo somente o seu primeiro nome e passa a identificar-se sempre como um religioso. O sistema Kaimyoo foi criado a partir da chegada do budismo à China.

        No Japão, o sistema também era adotado desde a introdução do budismo, porém era limitado às pessoas que seguiam a carreira religiosa. Posteriormente, o sistema foi alterado e mesmo os que não abandonavam a vida secular passaram a receber o nome Kaimyoo, aceitando os mandamentos ou após a sua morte.
        Na Era Edo, esses nomes passaram a ser objetos de comércio, motivo pelo qual, todos passaram a tê-lo, desde samurais, comerciantes, até os errantes. Normalmente era proibida a colocação de títulos kojigoo ou daishigoo como kaimyoo para a classe dos agricultores. Além dos Kaimyoos comuns, há os seguintes títulos:

*Homens: Daikoji, koji, Daizenjoomon, Zenjoomon, Shinji, Shooshinji.
*Mulheres: Seidaishi, Daishi, Daizenjooni, Zenjooni, Shinnyo, Seishinnyo.
*Crianças: Daidooji, Dooji, Daidoonyo, Seidooji.

        A maioria dos Kaimyoos são compostos de quatro letras: 0000 Koji (daishi) Kaimyoo

        Solicita-se ao monge escolher o Kaimyoo tomando como base o Kaimyoo dos familiares do falecido. Um problema que tem surgido ultimamente é a alta dos preços do Kaimyoo. Porém, por ser uma importante fonte de receita para os templos, os preços tem tido consideráveis variações de acordo com o prestígio do templo e categoria do Kaimyoo.
        Há aqueles que não são favoráveis a este tipo de costume. Porém, se observarmos melhor a humanidade, percebemos que em nenhum país do mundo se regateia despesas nos enterros de familiares. Portanto, não é incomum desejar que o falecido seja honrado com um Kaimyoo de categoria igual ou superior a dos seus antepassados.
        O Kaimyoo é escrito no Ihai - Tabuleta memorial do falecido , que é colocado no butsudan - Oratório de família onde se cultua a alma dos falecidos.

Fonte: São Paulo Shimbun 02/11/2000


MURASAKI SHIKIBU

        Recentemente, foi lançada no Japão uma novidade: a cédula de 2000 ienes. A cédula traz na frente a ilustração de Shurei no mon como homenagem à Okinawa Summit, reunião da cúpula mundial realizada em Okinawa. No verso traz uma ilustração de Genji Monogatari ou Estória de Genji, da autoria de Murasaki Shikibu.
        Nas cédulas do passado eram comuns ilustrações do príncipe Shootoku Taishi (575- 622, construiu a base para uma Nação de Sistema Imperialista e contribuiu para a difusão do Budismo) e políticos. Hoje, no entanto, levando em conta a era da globalização em que vivemos, foram escolhidos três personagens que tiveram importantes papéis nas relações do Japão com o exterior.

        Assim, a cédula de 10 mil ienes traz Fukuzawa Yukichi,(1834-1901, Ideologista do Período Meiji, jornalista e educador que introduziu no Japão o modelo educacional Europeu), a de 5 mil ienes traz Nitobe Inazo (1862-1933, educador do Período Meiji, o primeiro a escrever em inglês sobre o Japão para que os países da Europa pudesse conhecer) e a de mil ienes traz o retrato de Natsume Soseki (1867-1916, escritor de maior prestígio do Período Meiji no Japão e que introduziu o individualismo Europeu naquele país).
        Na ocasião, até houve manifestações indagando a razão de não ter sido escolhida nenhuma personalidade feminina, mas a idéia ainda não havia sido concretizada. A nova cédula de 2 mil ienes veio realizar esse anseio, tendo como tema a figura feminina Murasaki Shikibu (987-1015?).
        Por não termos dela nenhuma imagem retratada, a homenageada foi representada por uma das cenas desenhadas em pergaminho, da sua obra Genji Monogatari, o mais antigo romance do mundo. A revista brasileira "Veja" fez um levantamento dos importantes acontecimentos deste milênio, entre os quais citou o ano de 1001 como o ano em que foi escrito Genji Monogatari. A obra, apesar de ser a mais antiga do gênero no mundo, é rica em descrições psicológicas do ser humano, tais como amor, ódio, solidão ou conformação, sendo a autora elogiada como escritora de primeira classe em descrições psicológicas.

        Não se sabe o nome desta escritora que atuou nos meados do Período Heian, apenas sabe-se que foi filha de Fujiwarano Tametoki, administrador de Echigo (função equivalente ao atual governador da Província de Niigata). Os registros históricos não trazem nomes femininos, a não ser que estas sejam membros da família imperial. São sempre citadas como mulher ou filha de alguma personalidade masculina. Inicialmente, a escritora era citada como Tôo no Shikibu.
        O nome Tôo originou-se de Fujiwara e Shikibu nada mais é do que forma de tratar as kyuutei no nyooboo, ou damas da corte (nyooboo hoje em dia significa esposa, mas na época tratava-se de pessoas que trabalhavam na corte ou de filhas da baixa nobreza), conforme a função que seu pai ocupava.
        Posteriormente, adotou o nome de Murasaki no ue, personagem feminina principal de Genji Monogatari. Tudo indica que o romance cativou a imperatriz e demais senhoras da nobreza da época e fez sucesso em suas reuniões, semelhantes aos salões da Europa.
        Este romance tece o trama em torno do personagem central Hikaru Genji, membro da família Imperial, narrando seus casos amorosos desde sua infância até seus dias finais, colocando em cena mulheres de variados níveis sociais e tendo como cenário as disputas de poder dentro do Palácio e as transformações da natureza.
        Neste extenso romance, entram em cena inúmeras mulheres, o que mostra que o personagem principal leva uma vida de playboy inveterado.
        A obra é longa, composta de 54 volumes de episódios com enredos desencadeados de forma variada e interessante, sobre os quais, é forte a tese de que não são todos da autoria de Murasaki Shikibu. O sucesso além da expectativa fez com que novos episódios fossem criados, sendo que a metade posterior teria sido escrita por outro autor. Não há ainda uma tradução completa para o português, mas há pode ser lido em outros idiomas como inglês, francês e alemão.

        Murasaki Shikibu nasceu em uma família de alto nível cultural, com parentes próximos como avô, pai e tia considerados famosos poetas, que escreviam obras em chinês e japonês. Segundo seu Diário de Murasaki Shikibu, ela foi uma criança muito inteligente e seu pai então lamentava por não ter ela nascido homem. Não foi muito abastada financeiramente pois seu pai não recebeu da corte altos cargos ou territórios.
        Casou-se com um homem 20 anos mais velho com quem teve uma filha (mais tarde a filha também se torna poetisa), mas este veio a falecer três anos depois. Consta nos registros que após a morte do marido, Murasaki Shikibu passou a trabalhar na Corte Imperial, dando aulas de literatura chinesa a imperatriz. Era portanto, uma mulher talentosa da época. Com certeza, nem imaginava ela que sua obra fosse lida até o século 21, por pessoas do mundo inteiro.                 Ficaria ainda deveras surpresa se soubesse o quanto as mulheres da atualidade conquistaram em termos de independência financeira e elevação de posição dentro da sociedade.

Fonte: São Paulo Shimbun 09/11/2000


KINROO KANSHA NO HI

        No dia 23 de novembro é comemorado no Japão, o Kinroo Kansha no Hi (Dia de Ação de Graças ao Trabalho), quando os cidadãos dedicam sentimentos de gratidão mutuamente, valorizando o trabalho e comemorando a produção.         Equivale ao Thanks Giving Day da Europa e América. Historicamente, antes da 2ª Guerra Mundial havia uma comemoração chamada Niinamesai, em que o Imperador oferendava a Deus os novos cereais colhidos naquele ano.
        Esta Festa da Colheita era uma importante atividade, e está registrada na mitologia que a Deusa Amaterasu a realizava. Atualmente, é comemorada da mesma forma que a cerimônia de posse do Imperador, num barracão preparado para a cerimônia, onde há um leito com esteira e são colocadas duas cadeiras ao lado.

        A cerimônia consiste no seguinte: o Imperador, após banhar-se, ocupa um dos assentos da cerimônia e oferece a Deus os cereais colhidos e sakê, como se e Ele estivesse ali presente. Inicialmente, os cereais utilizados para esta cerimônia eram os produzidos nos terrenos pertencentes a Família Imperial, mas atualmente são utilizados cereais oferecidos de todo o país. Antigamente era realizada em mês de novembro do calendário lunar, sendo transferido para dia 23 de novembro a partir do ano de 1873. Esta data ainda hoje écomemorada, sendo as cerimônnias realizadas nos templos xintoístas Izumo Taisha, Ise Jinguu e muitos outros templos.

        Os agricultores e a população em geral também comemoravam a colheita e a boa safra com o Festival da Colheita de Outono. Esses fatos são narrados também em Man'yooshuu, uma antologia do século7. Nessa noite, os homens saíam de suas casas deixando somente as mulheres para receberem os Deuses. Curiosamente, a partir da Idade Moderna, estas atividades populares não são mais chamadas de Niiname. O Festival das Colheitas de Outono não só é uma oportunidade de agradecer a Deus pela safra, como também é um momento de descontração para os agricultores que podem cantar, dançar e divertir-se com as festas e as várias barracas noturnas de vendas instaladas nos templos nessa data.

        Houve época em que os japoneses eram criticados pelos estrangeiros por trabalharem demasiadamente. O que há de verdade nisso? Por que os japoneses não podiam deixar de ser trabalhadores dedicados? Há estudiosos que afirmam que isso se deve ao fato de os japoneses serem originariamente um povo agrícola.
        Em uma sociedade agrária, o povo precisa ajustar o seu ritmo de vida com o desenvolvimento das plantações. É um trabalho que requer muita dedicação, pois não se pode descansar um dia sequer, desde o plantio até a colheita. Era um tipo de trabalho que lidava com natureza, sendo necessário que os habitante da vila se unissem em grupos, pois era impossível realizar trabalhos como irrigação e colheita somente com a força de uma família.
        Assim, fortificou-se a consciência grupal e a solidariedade. Mesmo os ajudantes que vierem de fora, eram tratados como membros da Família. Com isso, a produtividade se elevou. Dizem que esta é a diferença entre um povo agrícola e um povo cuja atividade principal é a caça. Esta consciência grupal ainda hoje continua presente na sociedade japonesa. Apesar da diminuição dos que se dedicam à agricultura para menos de 4% de toda a população, esta consiência de grupo é forte até mesmo na sociedade industrializada.

        Atualmente, está sendo necessário recorrer às mãos de obra estrangeiras e o que se questiona é se será possível continuar tratando os como membros da família. A questão exige uma mudança não somente nas leis, mas também na consciência das pessoas.

Fonte: São Paulo Shimbun 23/11/2000


EXAME DE PROFICIÊNCIA

        Exame de Proficiência em Língua Japonesa "tem por objetivo avaliar e certificar a proficiência dos estudantes de língua japonesa que não tenham a mesma como língua mãe", sendo realizado anualmente desde o ano de 1984, sempre no domingo compreendido entre os dias 4 e 10 de dezembro.
        A atividade é uma promoção conjunta entre Fundação Japão e Association of International Education, Japan. No Brasil, os contatos são realizados pelo Centro de Difusão da língua Japonesa, com a colaboração das escolas de língua japonesa de todas as regiões, inclusive Aliança Cultural Brasil-Japão.
        No primeiro exame realizado, o número de participantes foi de 7019 pessoas; no ano passado este número se elevou para um total de 100 mil pessoas em 32 países. O número de examinados é diretamente proporcional ao número de estudantes de língua japonesa de cada país.
        O primeiro colocado em número de participantes é a China, seguido de Coréia, Formosa, e em quarto lugar o Brasil. A avaliação é realizada em níveis 1 a 4, de acordo com o grau de dificuldade, sendo o nível 1 o mais avançado e o nível 4 o menos avançado.
        Em cada nível a avaliação é composta de três partes: "Letras e Vocabulário", "Compreensão Auditiva" e "Compreensão do Texto e Gramática". Não haverá prova oral como ocorre com Toefel (Test of English as a foreign Language, ou seja, teste de inglês para os estrangeiros), a ênfase será dada na leitura. Para ser aprovado o examinando dee ter no mínimo 70% de acertos para o nível 1 e 60% para os demais níveis.
        Uma estatística recente mostrou que o número de aprovados nos níveis 1 a 4 atinge somente 45% do total de examinandos, o que indica o grau de dificuldade do exame. Os participantes brasileiros têm uma peculiaridade de que a maioria deles são jovens, da faixa etária entre 7 e16 anos. Esta prova foi originalmente elaborada para adultos. Devido a isso, a Fundação Japão e o Centro de Difusão da Língua Japonesa estão se preparando para realizar o "Exame de Proficiência para crianças".
        Os exames aplicados nos anos anteriores foram editados e estão sendo comercializados sob título de "Exame de Proficiência em Língua Japonesa do ano...." - Questões dos níveis 1 e 2 (ou 3 e 4) e gabaritos. O preço é de 1.143 yenes e acompanha uma fita cassete. Que tal participar também deste exame para medir o seu nível de conhecimento em língua japonesa? Boa Sorte para os que irão prestar o exame!

Fonte: São Paulo Shimbun 30/11/2000


TORI NO ICHI

        Em meados do mês de novembro, acontece um festival chamado Otorisama nos Templos Ootori Jinja. Inicialmente, Otorisama era tido como Deus dos Samurais, mas hoje é Deus da prosperidade nos negócios e do transporte marítimo. Os mais famosos Templos Ootori Jinja são o de Sakai, em Osaka e o de Asakusa, em Tóquio.
        No dia do festival, a área do templo fica repleta de barracas comerciais, onde o produto mais procurado é o kumadê (ancinho, um instrumento agrícola com um longo cabo, usado para juntar palhas, folhas secas, etc.).
        Kumadê significa literalmente "pata de urso", e é assim chamado devido ao seu formato. Quando à relação existente entre este instrumento e a festividade, existe a seguinte explicação: antigamente, a região onde situa o Templo Ootori de Asakusa era uma área agrícola, e na ocasião da festividade, vendiam-se utensílios e instrumentos agrícolas.
        Como a venda não era satisfatória, colocou-se nos ancinhos o desenho do rosto da Deusa da Felicidade Okamê (rosto feminino engraçado e simpático) e vendeu-se como um objeto que atraía boa sorte. Assim, o produto passou a ser muito procurado.
        A idéia de dar ao objeto um valor adicional foi uma estratégia comercial bem sucedida. Atualmente são penduradas no kumadê inúmeras outras coisas como: koban (moeda da Era Edo de elevado valor), o peixe Tai (pargo, por rimar com medetai, palavra usada para expressar boa ventura; a beleza deste peixe o faz indispensável nas ocaisões de festas), sacas de arroz (o arroz sempre foi o principal alimento e simboliza riqueza), grou e tartarugas (esses animais simbolizam longevidade, conforme o ditado:Tsuru wa sennen, kame wa mannen, que significa " O grou vive mil anos e a tartaruga, dez mil").
        Pinheiro/bambu/ ameixeira ( o pinheiro, por ter suas folhas perenes, simboliza a vida imutável; bambu simboliza a retidão e o crescimento vigoroso; a ameixeira que floresce no início da primavera simboliza uma beleza que supera as adversidades), porta-amuleto (amuletos recebidos nos templos xintoístas: figuras com imagens ou escritos que as pessoas carregam junto de si ou fixam na parede de sua casa, para afastar desgraças ou malefícios), seta e alvo (para que as metas traçadas sejam alcançadas), plaqueta com a inscrição shoobai hanjoo ( sucesso nos negócios e prosperidade), outra plaqueta com a inscrição kanai anze (bem estar da família, para que tenha saúde e nada de negativo aconteça), martelinho (é a versão japonesa da "lâmpada de Alladin", ou seja, realiza qualquer desejo, bastando para isso, agitá-lo), etc.
        Será isso uma mostra de como o homem moderno recorre a Deus para realizar sus desejos?
        Segundo contam, quanto mais recessivo o ano for, a procura pelo ancinho é maior. No ato da compra, o comprador e o vendedor realizam juntos o teuchi (bater palmas ao mesmo tempo). Este objeto que atrai a sorte é adquirido antes da passagem do ano, colocado na parede ou no santuário da família e as pessoas oram para que o novo ano traga boas venturas. Mesmo nesta era de alta tecnologia estas tradições ainda continuam sendo seguidas.

Fonte: São Paulo Shimbun 07/12/2000


HANETSUKI - Peteca

      Até na primeira metade da década de 1960, antes do Japão entrar no dito período do grande crescimento econômico, observava-se pelas ruas do Japão, crianças brincando de rebater peteca (hanetsuki) no ano novo. O som da raquete que ecoava no céu de inverno era uma coisa muito agradável. Atualmente, esta cena desapareceu quase que por completo do cenário.
      A origem de hanetsuki não é clara. Na Europa existia o badminton. Na China era praticada uma brincadeira chamada tchentsu que consistia em rebater a peteca com pé. No Japão, esta brincadeira foi identificada pela primeira vez no diário do Palácio Imperial do século 15, com o nome de "koginoko shoobu" (disputa com a raquete). Na época, a raquete era também chamada de kogiita. A brincadeira era praticada por adultos que faziam apostas em dinheiro. A partir dos séculos 16 a 17, a brincadeira se popularizou, passando a ser praticada por meninas, no ano novo. O Shogun Leyasu mandou confeccionar hagoita (raquetes) em makiê (uma técnica peculiar da arte manual japonesa, que consiste em desenhar ou estampar em laca, polindo após espalhar por cima pó de ouro ou prata).

      Os desenhos tinham como temas atividades palacianas do ano novo como sagichoo(atividade realizada em 15 de janeiro, na qual queimavam-se bambus verdes no jardim do palácio, oferendando aos céus o kishoo, ou seja, papéis em que eram escritas palavras de congratulações e felicitações). Evidentemente, tais raquetes eram usadas como peças decorativas e não há vestígios de terem sido usadas para jogar petecas. No século 19 começou a circular em Edo hagoita com ilustrações de grou ou tartaruga na técnica oshiê (com tecido estofado).
      Posteriormente, popularizaram-se os hagoita com desenhos de caricaturas de artistas e cenas de kabuki, feitas sob a mesma técnica. No final do ano são realizadas feiras de hagoita, que já não têm o prestígio de outrora. Os hagoita como peças decorativas ainda hoje são utilizadas nos lares em ano novo, embora com menor freqüência. O seu tamanho também ficou reduzido. O tempo consagrou badminton como uma modalidade esportiva internacional, enquanto que hanetsuki está sendo relegado ao esquecimento. Mais uma tradição japonesa desaparece diante da vida ocidentalizada.

Fonte: São Paulo Shimbun 28/12/2000